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Jorge Drexler constrói pontes com novo disco ‘Taracá’ – 13/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Rito e ritmo são dois eixos centrais —musicais, metafóricos e metafísicos— de “Taracá”, novo disco do cantor uruguaio Jorge Drexler que chega hoje às plataformas digitais. O título nasce da fusão de uma aférese e de uma onomatopeia: condensa a síncope da expressão uruguaia “estar acá, ou “estar aqui”, com o som das madeiras que batem nas laterais do tambor do candombe, gênero afro-uruguaio por excelência.

“Taracá” é também uma forma de oração —pagã—, um ato de fé —agnóstico— e um fio de reconexão com uma humanidade dispersa em sua dependência algorítmica enquanto o mundo “vai para o brejo” —tradução tímida de “se va al carajo”, verso que Drexler entoa com convicção e contundência em uma das 11 faixas do álbum.

Toco Madera” —título que reúne o duplo sentido de tocar o tambor e invocar proteção, à maneira do nosso “bater na madeira”— abre o disco e funciona como porta de entrada para esse universo. Em “Taracá”, Drexler percorre diferentes manifestações da música uruguaia —milonga, murga, plena— sem jamais soltar a clave do candombe. O álbum ainda incorpora outros ritmos afrolatinos, como o samba, para afastar maus presságios e afirmar a alegria não como euforia, mas como profissão de fé.

Daí que uma das faixas mais significativas para o Brasil seja “¿Qué Será que Es?”, versão em espanhol para “O que É o que É”, de Gonzaguinha. “Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder dizer em voz alta ‘viver e não ter a vergonha de ser feliz’ é catártico. É a paradoxal coragem da felicidade e do amor. O ódio é o primeiro reflexo que aprendemos nas redes sociais e com políticos que comandam o mundo. A resistência é o amor”, diz o artista.

Mas fé em quê? Na construção permanente de pontes, apesar —e também por causa— dos tempos violentos que vivemos. Drexler dialoga com o zeitgeist contemporâneo e retorna à própria pátria para exorcizar a desesperança e a dor. “Taracá” é também um disco de luto: foi concluído após a morte de seu pai, Gunther, que coincidentemente faria aniversário neste 13 de março, data em que o álbum agora abraça o mundo.

Como aconteceu essa volta musical ao Uruguai?

Foi uma decisão talvez inconsciente, mas com a necessidade de me conectar com os componentes básicos da minha identidade. O luto é um estado estranho, não é linear, não é que você está só triste e faz um disco falando de saudade. Esse disco é contraditoriamente celebratório, luminoso. Porque a vida do meu pai foi cheia de superações. Um começo terrível na Alemanha nazista, ele foge aos quatro anos —minha família foi uma das últimas entre os judeus que saíram, em 1939. E entram na Bolívia, o único país que recebia refugiados judeus europeus nesse momento. Fiz uma música sobre isso, que tive o prazer de compartilhar com Caetano Veloso.

“Bolívia”.

Sim. No Uruguai, ele conhece minha mãe, que era do Partido Comunista, meu pai era social-democrata. Meu pai judeu, minha mãe sem religião. Aprendi a conviver numa família em que meu avô judeu se vestia de Papai Noel no Natal. Meu avô não judeu ia à sinagoga visitar meu avô judeu. Duas famílias coexistindo amorosamente, e achei que isso era normal. Saí para o mundo e percebi que era um luxo. Essa lição que eu tive de menino é de máximo valor no mundo, onde cada vez mais aparecem figuras políticas que fazem da confrontação uma arma perigosíssima. Esse é o zeitgeist do disco. Tem a ver com essa vontade de lutar contra qualquer forma de discriminação, até a etária, porque há muitas gerações juntas nesse trabalho.

O tambor é âncora de conexão para a diáspora africana.

Sem estabelecer paralelismos, que são sempre difíceis, mas, quando você vê de dentro de um grupo discriminado a discriminação, aprende a perceber essa discriminação em todos os âmbitos. Mesmo assim, a discriminação racial é mais imediata, é diferente. A minha ponte com a cultura afro-uruguaia vem do começo dos anos 1980 com amigos de famílias afro-uruguaias tradicionais, com forte consciência cultural. Você vê a complexidade do candombe quando tenta tocar. Mas o que mais me marcou foi a capacidade de gerar um estado espiritual: ‘estar acá’, aqui e agora, baseado em uma sonoridade percussiva. O transe que o candombe trouxe para a sociedade uruguaia mudou toda a percepção metafísica que ela tem. Você entra em contato com algo muito poderoso. ‘O melhor lugar do mundo é aqui e agora’, essa coisa do Gil que adoro, essa visão, achei isso no candombe.

Como surgiu a versão de “O que É o que é”?

A música brasileira estende o marco conceitual da canção e lhe dá a oportunidade de entrar em territórios do pensamento, da historiografia. Essa canção de Gonzaguinha é uma viagem iniciática, também em sua estrutura. É a única, de toda a minha vida, que ainda tenho que tocar com partitura, porque ela vai circulando, sempre de forma mais fechada e diferente. É a complexidade da vida, você roda, fica tonto, ela te leva para um lado, para outro, você acha que volta, mas de repente, não. Mas a vida deve ser melhor e será. Há muitas ferramentas psicológicas e espirituais em poder dizer em voz alta ‘viver e não ter a vergonha de ser feliz’ é catártico. É a paradoxal coragem da felicidade e do amor. O ódio é o primeiro reflexo que aprendemos nas redes sociais e com políticos que comandam o mundo. A resistência é o amor.

Em uma das canções, você celebra os clarividentes. Em que você acredita?

Na ponte. Qualquer ferramenta que sincronize as pessoas entre duas margens diferentes de um mesmo rio. A música é uma experiência de sincronização que abre um canal de comunicação. Esse não é um comentário leviano, é uma constatação neurocientífica cada vez mais evidente. Dançar com alguém sincroniza as ondas cerebrais, os ritmos corporais, emocionais. É a grande batalha hoje. Foi a Marisa Monte que me falou… A gente gera um estado de consciência em um show, que o público entra de um jeito e sai de outro, com uma conexão que não é conceitual. Sua opinião não é tão importante como seu ato de presença. Meu trabalho não é opinar, não sou especialista em nada, mas talvez sim em construir músicas para essas conexões.

Sempre é possível construir pontes?

Um exemplo mais que central na minha existência de pessoa judia e não judia é o conflito entre Israel e Palestina. Seria ingênuo pensar que agora as pontes podem ser cruzadas, mas quando falo de clarividentes, estou pensando especificamente em grupos de pessoas que perderam familiares dos dois lados, como Parents Circle ou Women Wage Peace. Pessoas unidas pelo luto, que faz entender que o outro é mais eu do que aqueles que acham que eu sou do mesmo bando. Essas pessoas são clarividentes, moram no futuro. Sabem que a ponte que estão construindo não vai ser atravessada agora, mas talvez pelos bisnetos deles. Agora é impossível, mas eles sabem que é uma questão de tempo.

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