Jürgen Habermas morreu em 14 de março de 2026, com 96 anos de idade, em Starnberg. O fato parece meramente biográfico, mas não é. Há mortes que encerram uma vida, e há outras que testam uma época inteira.
A morte de Habermas pertence ao segundo tipo, porque desaparece não apenas um filósofo monumental do pós-guerra, mas uma das últimas personalidades para quem pensar em público, em voz alta, ainda significava prestar contas ao melhor argumento, e não ao simples impulso mais lucrativo à procura de likes.
Aqui, o paradoxo é severo: a ausência de Habermas pesa justamente quando mais se multiplicam falas, opiniões e certezas absolutas e instantâneas. Nunca foi tão fácil dizer como hoje, e talvez nunca tenha sido tão difícil justificar e argumentar com profundidade.
Nossa vida pública, inclusive no Brasil, parece com uma sala cheia de microfones em que pouca gente aceita a disciplina elementar de ouvir a objeção do outro, o diálogo real. O resultado é uma estranha inflação da palavra: fala-se mais, responde-se menos, afirma-se mais, examina-se menos; e quem realmente escuta a palavra dos outros?
O legado mais vivo de Habermas deve estar aí: lembrar que linguagem, para muito além de veículo de influência, é um risco compartilhado de prestação de razões. Toda sociedade adoece quando transforma desacordo em guerra de torcidas ou transforma verdade em reflexo de simplório pertencimento bairrista ou tribal. Nessa patologia, a sinceridade humana se degrada,porque já não precisa ser honesta, apenas performática para ganhar like e lucro.
A esfera pública, viciada, vira um tipo de aquário de espelhos: cada grupo nada dentro da própria imagem e chama isso de mundo. A bolha está sufocando o grupo, mas ele se identifica com a bolha, se submete a ela.
Por isso a morte de Habermas interessa a todos, e não apenas aos especialistas habermasianos. Ela nos obriga a questionar se ainda almejamos uma convivência verdadeiramente regulada por argumentos livres e lógicos ou apenas uma administração técnica eficiente dos corpos somada ao mercado dos afetos e vícios.
O nome próprio se foi, mas a exigência ética ficou. E a exigência é dura. Uma democracia começa a morrer não quando perde consenso, mas quando perde o pudor de justificar o que faz com os outros: morremos todos quando já não acreditamos mais em nós mesmos, na nossa própria inteligência, na nossa própria honestidade intelectual.
Wellington Anselmo Martins é mestre em Filosofia (UNESP) e mora em Bauru (SP).
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