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Krasznahorkai faz rir de nervoso em narrativa cacofônica – 13/02/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Em uma parada no trajeto que o leva de volta à sua cidade natal, o arruinado barão Béla Wenckheim observa, pela janela do trem, uma mulher que tenta fazer o retrato de um menino. Fosse outro livro, veríamos a dupla apenas pelos olhos do protagonista, mas neste aqui saímos do vagão e, em uma digressão sem desdobramentos futuros, habitamos por três páginas a consciência da fotógrafa, até saltarmos de volta ao trem, que dá um tranco e segue viagem.

O narrador de “O Retorno do Barão de Wenckheim” não permite a presença de figurantes que passem de relance sem nada dizer. Como esclarece um maestro para sua orquestra, na obscura “Advertência” que abre o livro, ele quer “saber de tudo a toda hora”, até mesmo “os pensamentos mais tolos” e “os detalhes aparentemente mais insignificantes” desta história em que “não haverá alegria, e não haverá consolo”.

O romance de László Krasznahorkai, lançado em 2016, é precisamente a sinfonia das vozes e consciências que cercam o barão e sua cidade decadente, nos cafundós da Hungria contemporânea, onde políticos corruptos compartilham seu pouco poder com uma milícia de motoqueiros neonazi ridículos —e onde a dialética entre malandros e otários, habitual para leitores brasileiros, se cobre de uma chuva gelada, do ressentimento contra imigrantes miseráveis e de tons apocalípticos.

Dois velhos desatinados e seus fiascos estruturam o romance. O primeiro a surgir é o sr. Professor, que passa por uma crise de fé na razão e, de especialista internacional em musgos, tenta se converter em eremita. Ele se isola em uma floresta, mas é obrigado a fugir após a chegada tumultuosa de uma filha e de um desentendimento com a ressentida gangue neonazi.

Enquanto o professor não volta às páginas, quem houver vencido a resistência inicial e entrado no transe encantatório criado pela cacofonia narrativa acompanhará o tal retorno do barão. Escorraçado da Argentina devido a dívidas e resgatado pelo braço austríaco da família Wenckheim, ele sonha em voltar aos braços do povoado e de uma antiga namorada. Ao saber de sua chegada iminente, a cidade se prepara para receber em festa aquele que, espera-se, irá resgatar a dignidade e as finanças do lugar.

O espetáculo da recepção do barão faz rir alto quem lê, mesmo que de constrangimento pelos personagens torpes, ou de nervoso pelos apenas humanos. Há, contudo —entre máquinas caça-níqueis, órfãos albaneses e, principalmente, vigaristas que passam outros vigaristas para trás—, alguma ternura no livro, apesar de breve e condenada. E há sobretudo humor, o que torna “O Retorno do Barão” um tanto mais palatável do que “Sátántangó”, o outro romance do autor já traduzido por aqui.

Se não há consolo nos eventos narrados no livro, há alegria em viver por quase quinhentas páginas as maravilhas que só um romance de ficção, com suas invenções, pode proporcionar. Krasznahorkai desafia os limites da maior delas: a alternância de modos discursivos, artifício por meio do qual o narrador-maestro se move entre os pensamentos das personagens, suas falas, aquilo que veem, sentem ou comunicam. Tudo isso é traduzido com destreza e graça por Zsuzsanna Spiry.

Chafurdando na virtuose impressionante do fluxo entre algumas dezenas de vozes e consciências, conseguimos em “O Retorno do Barão” penetrar uma comunidade feita de uma argamassa ideológica coletiva —é ostensiva a crítica à Hungria do ultradireitista Viktor Orbán—, mas também de uma infinidade de idiossincrasias individuais. A sensação é estonteante e, ao mesmo tempo, estranhamente familiar.

Causa também vertigem o outro elemento a organizar a narrativa: um medo delirante, que paralisa os habitantes, a chuva e o vento e que de episódico vai se tornando pervasivo. O medo e a alegria em nós, conclui a certa altura o sr. Professor, “são os dois lados da mesma moeda”.

Na narrativa de Krasznahorkai, a moeda é lançada ao ar e cai com estrondo, a cara sombria virada para nós. A alegria de reconhecer o poder vivo da ficção, no entanto, permanece.

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