Nas aldeias do Alto Xingu, em Mato Grosso, aprender a ler também pode ser aprender sobre a própria vida e a cultura indígena. No livro “Ingu Helú: De Olho Aberto”, cada palavra vem acompanhada de uma frase que mostra como ela é usada no dia a dia das aldeias.
É quase um glossário, sabe? Aqueles de dicionário, que explicam as palavras. Mas não é um glossário qualquer. Para descrever “avô”, por exemplo, o leitor encontra: “api heke uakihalü konituki” ou “o meu avô me ensinou a sonhar”. Já para “casa”, aparece: “üne hege uhekunkginhi” ou “a minha casa é muito grande”.
Assim é o karib, língua indígena falada por povos daquela região. No livro, tudo aparece em karib e em português. A ideia é ajudar as crianças indígenas da região a aprender a ler e escrever a partir da própria realidade.
Mas nem sempre foi assim. Quando os primeiros livros chegaram às escolas indígenas da região, muitas crianças estranharam. As páginas mostravam prédios, ruas e cidades que não faziam parte da vida delas.
O professor Mutuá Mehinaku percebeu isso de perto. Para ele, faltava um livro que mostrasse o modo de viver da comunidade.
Foi assim que surgiu a ideia do livro bilíngue. Criado por educadores indígenas, traz o dia a dia das aldeias: o peixe, a roça, a casa, a convivência entre as pessoas.
Em karib, “ingu helú” quer dizer “abrir os olhos”. “Hoje eu vejo as crianças reconhecendo o que está no livro. Elas apontam, desenham, falam os nomes”, conta o professor Mutuá. “Isso ajuda na alfabetização, primeiro pelos desenhos, depois pela escrita na nossa língua.”
O livro reúne 45 palavras ilustradas e já começou a ser usado em escolas de 11 aldeias dos povos Kuikuro, Kalapalo, Matipu e Nahukwá.
A entrega dos exemplares também fez parte da história do projeto. Em janeiro de 2026, uma caravana percorreu mais de 1.500 quilômetros, por estrada e barco, até chegar às aldeias.
Para Takumã Kuikuro, coordenador do projeto, o mais importante é que o livro foi feito pela própria comunidade.
“Quando o livro é feito por nós, ele fortalece a nossa língua e a memória dos nossos ancestrais”, diz.
Ele também destaca que isso ajuda na educação das aldeias. “Não é só um livro. É uma forma de manter as crianças conectadas com a própria cultura.”
O professor Daniel Massa, que também participou da criação, diz que o projeto mostra outro jeito de aprender.
“Os povos indígenas passam a contar suas próprias histórias. E outras pessoas também podem aprender com esse jeito de ver o mundo”, afirma.
O livro foi produzido com apoio do Fundo Casa Socioambiental e da Imaginable Futures, por meio de uma chamada para projetos de educação indígena e quilombola, que está aberta para novos projetos.
Nos próximos meses, o livro chega a outras escolas de diferentes aldeias da região. E, pouco a pouco, mais crianças indígenas vão descobrindo que aprender a ler também pode ser se reconhecer nas próprias histórias.