Você já esqueceu a letra de uma música, mas sabia cantarolar a melodia de cor? Acha que se concentra melhor em atividades intelectuais e até que performa melhor em atividades físicas se coloca seu artista favorito para tocar ao fundo? Ou ainda que a música que você escolhe para ouvir de manhã pode ditar como se sente no resto do dia? Para Daniel J. Levitin, tudo isso pode ser explicado pela neurociência.
O autor de “A Cura Pela Música”, lançado no Brasil pela editora Objetiva, utiliza evidências científicas para detalhar como o cérebro processa a música de forma multimodal, ou seja, envolvendo diferentes regiões cerebrais.
Quando aperta o play no celular ou na caixa de som, ou encosta a agulha no disco de vinil, o som “viaja” do ouvido até o córtex auditivo, mas também ativa circuitos relacionados ao movimento (cerebelo e córtex motor), às emoções (sistema límbico e amígdala), à memória (hipocampo) e à recompensa (núcleo acumbente).
Por envolver o nosso cérebro de maneira tão complexa, Levitin argumenta, a partir de estudos científicos, que a música pode ir além de um momento de prazer momentâneo. Mas, por outro lado, ele admite que é uma ciência que ainda carece de aprofundamento.
Ele enfatiza que há uma subjetividade na eficácia musical, e que é uma ciência ainda um tanto “bagunçada”. Apesar de afirmar que a música recruta diversas áreas do cérebro, ele diz ser um desafio vincular genes específicos à musicalidade.
A música como cura para doenças neurológicas
O autor conta o caso do cantor Tony Bennett que, aos 94 anos, estava em um estágio avançado de Alzheimer. Ele não expressa emoções e não reconhecia as pessoas ao seu redor nem mesmo a própria esposa. Mesmo assim, ao ouvir uma de suas canções, Bennett poderia cantar por 90 minutos sem esquecer uma letra.
Levitin explica esse fenômeno pela redundância biológica e pela forma como a música afeta diferentes tipos de memória no cérebro, e as memórias musicais estão entre as mais robustas do ser humano, sobrevivendo até mesmo quando o cérebro está devastado pelo Alzheimer.
Isso acontece porque os componentes de ritmo, melodia e rima atuam como dispositivos mnemônicos que se reforçam mutuamente. Se a pessoa esquece uma palavra, a estrutura do ritmo ou da melodia ajuda o cérebro a preencher a lacuna e recuperar a informação.
É esse mesmo mecanismo que faz com que a música também seja uma aliada para o tratamento de outras doenças, como o Parkinson ou a recuperação de um AVC (acidente vascular cerebral). E um dos principais fatores envolvidos nessa possibilidade é que a música estimula a neuroplasticidade, que permite que o cérebro modifique sua estrutura e função em resposta à aprendizagem, à experiência e às mudanças ambientais.
Como a música pode ajudar na saúde mental
Não apenas como uma forma de melhorar superficialmente o humor, o livro afirma que a música é uma ferramenta capaz de ajudar pessoas com transtornos psiquiátricos graves, como a esquizofrenia, a organizar pensamentos e regular emoções. Quando atinge o cérebro, ela pode modular neurotransmissores essenciais, como a dopamina —responsável pelo prazer—, a serotonina —pelo humor e bem-estar— e a ocitocina —pelo vínculo social.
A musicoterapia como prática terapêutica ajuda a melhorar o estado de ânimo e a reduzir a intensidade das alucinações auditivas e pode beneficiar outros transtornos psiquiátricos, como a TEPT (transtorno de estresse pós-traumático).
As evidências, no entanto, ainda são preliminares em larga escala. A música pode também ser um gatilho negativo para quem tem TEPT, trazendo à tona estados de hipervigilância e pânico em veteranos ou vítimas de trauma. Além disso, a musicoterapia é diferente de apenas ouvir música casualmente e demanda profissionais qualificados para tal.
A música como um analgésico
Esse mesmo alcance sobre o sistema nervoso explica por que a música também pode funcionar na sensação analgésica. Estudos clínicos citados no livro mostram que ouvir música pode reduzir a quantidade de anestesia em cirurgias e ajudar na dor também do pós-operatório. A música atua no cíngulo anterior como o “interruptor da atenção”, que ela consegue desativar.
Outro argumento é que o cérebro libera seus próprios opioides quando ouve música. A ressalva é que os sons não substituem os fármacos, mas podem ajudar na redução da dosagem.
A chave, para Levitin, é a intencionalidade. Ele acredita que uma das descobertas mais robustas da neurociência musical é que as músicas selecionadas pelo próprio paciente são mais eficazes para o relaxamento e o alívio da dor do que se outras pessoas escolherem.
A música indesejada, principalmente em espaços públicos, pode causar o efeito contrário, já que pode ser classificada como poluição sonora e ativar o centro do medo na amígdala quando imposta ao indivíduo.
Como a eficácia depende do controle da escolha, Levitin recomenda que seleções musicais —as famosas playlists— sejam criadas de acordo com o contexto e a necessidade específica daquele momento. E, com a chegada da IA (inteligência artificial), ele acredita que essa experiência possa ficar cada vez mais automatizada e personalizada.