Em “Um Dia Todos Dirão Terem Sido Contra”, de Omar El Akkad, o tema não é apenas o do genocídio em Gaza com suas raízes históricas na formação do Estado de Israel ou nos ataques do Hamas de outubro de 2023, mas o lugar a partir do qual o massacre é observado.
No livro premiado com o National Book Award na categoria de não ficção, o narrador fala de dentro das sociedades ocidentais nas quais vive há décadas, que ainda querem se apresentar ao mundo como guardiãs de um vocabulário universal baseado em direitos humanos, legalidade internacional e proteção da vida civil.
Nascido no Egito da ressaca terceiro-mundista e formado entre deslocamentos que o levaram ao interior do mundo anglo-americano, El Akkad ocupa uma posição singular: simultaneamente dentro e fora do universo que descreve. Pertence a uma geração que enxergava o Ocidente como horizonte moral almejado.
E é justamente dessa posição que ele observa a reação ocidental ao massacre em Gaza: os silêncios, as justificativas e as racionalizações que permitem conciliar a defesa abstrata dos direitos humanos com a aceitação prática de sua completa suspensão.
O contexto em que o livro foi escrito reforça o contraste. Sob o governo Joe Biden-Kamala Harris, a política norte-americana continua se apresentando na linguagem tradicional do liberalismo: defesa da democracia, da ordem internacional baseada em regras e dos direitos humanos. Essa retórica permite que o autor exponha a distância entre valores proclamados e práticas concretas.
Em contextos abertamente imperialistas, como o governo Donald Trump-J.D. Vance, essa tensão aparece de forma mais crua. No ambiente liberal, ao contrário, ela precisa ser administrada incessantemente no discurso, o que torna visível a maquinaria de justificativas diárias que sustenta a convivência entre universalismo moral e cálculo político.
A forma do livro acompanha esse diagnóstico. El Akkad alterna com ritmo ágil episódios autobiográficos com reflexões sobre a política, de forma que os polos se influenciam reciprocamente, gerando força literária e densidade histórica ao livro.
O resultado é algo próximo a uma autobiografia moral do desencanto: a narrativa de alguém que acreditou profundamente na promessa liberal e que agora acompanha, quase com perplexidade, o modo como ela se apresenta seletiva diante de um teste histórico extremo.
A estrutura tende a seguir o seguinte roteiro: exposição de um momento de violência ou hipocrisia política, seguido de algo que podemos chamar de saturação moral, quando o argumento chega a um ponto em que a repetição de justificativas e racionalizações cria uma sensação de impasse. E, por fim, o deslocamento autobiográfico, quando o autor retorna a episódios pessoais: infância no Egito, migração, experiências profissionais, vida cotidiana no Ocidente etc.
Nesse sentido, o livro se aproxima de uma tradição ensaística que nos Estados Unidos tem como um de seus principais representantes James Baldwin. Foi um autor que escreveu de dentro da cultura ocidental, mas a partir de experiências históricas que tornavam visíveis as fissuras de sua promessa universal.
Para esse seleto grupo de pensadores, a força da crítica não nasce da rejeição pura e simples desses valores, mas do esforço intelectual de pedir coerência entre aquilo que se proclama e o que se pratica.
Se o impulso dessa atitude tende, em algum nível, a confirmar essas sociedades ao almejar seu aperfeiçoamento, Gaza colocaria um fim a esse estranho pacto. Afinal, o morticínio não foi “criado por um sistema desvirtuado, mas por um sistema que funcionou exatamente como pretendido”.
Ao se implicar na história, El Akkad também reflete sobre a força da escrita: a palavra permite reconstruir nexos, restituir contexto e formular perguntas que a circulação isolada de imagens e vídeos da destruição não sustenta. Surge uma questão central do livro: qual é, diante de uma violência amplamente visível e ao mesmo tempo politicamente neutralizada, o papel de artistas e intelectuais?
O título da obra aponta para o horizonte dessa reflexão. Quando certas violências entram definitivamente para a história, instala-se um fenômeno conhecido: muitos dos que permaneceram em silêncio passam a afirmar que sempre estiveram do lado certo da história.
O livro de El Akkad tenta registrar o presente antes dessa reorganização retrospectiva da memória. Ao leitor, fica o convite incômodo para pensar sua própria posição moral diante de um genocídio. Não no futuro, mas hoje mesmo.