Escrever um livro cujo título é uma pergunta pode ser um tanto arriscado em um momento em que as pessoas recorrem a agentes de inteligência artificial para encontrar uma resposta. Principalmente se o texto tem como público-alvo estudantes da geração Z (nascidos entre 1995 e 2010).
“Por Que Estudar Economia?”, parceria do economista Fabio Giambiagi e da doutora em administração Arlete Nese, oferece ao menos dez argumentos para atrair adeptos à profissão. Para entender o Brasil, o mundo e a própria economia. Lidar bem com números. Aprender a pensar melhor, ser versátil e multitarefas. Encarar a IA. Compreender os diversos lados de uma questão e, por fim, quem sabe, cair na vida com uma boa remuneração.
Todas essas respostas são apresentadas junto a pequenas aulas de economia, relatos de vivências pessoais e menções históricas, no formato de uma conversa com o leitor. Um estilo que um dos autores (Giambiagi) diz ter sido escolhido para oferecer um diferencial ao leitor —muitos deles já nascidos no mundo digital.
A proposta inicial era ser justamente uma espécie de guia para estudantes na faixa de 16 ou 17 anos que precisam escolher uma faculdade. Mas o escrito foi ampliado deliberadamente para que pudesse ser útil também aos profissionais de qualquer área que precisam compreender melhor o assunto —inclusive jornalistas. Ou para pessoas que gostariam de entender melhor o que esses jornalistas escrevem nos cadernos de economia, como este aqui.
Foi o que aconteceu com o próprio Giambiagi no final dos anos 1970, quando abandonou o curso de sociologia para estudar economia.
Pelo menos dois capítulos servem também de guia para aqueles que já são estudantes de economia, mas ainda não enxergam claramente as possibilidades de carreiras que tal curso oferece. O livro traz, por exemplo, casos fictícios de formados que seguiram diferentes caminhos, mostrando que a vida na Faria Lima não é a única opção.
Estão lá o analista de um grande banco e a consultora, mas também o assessor do ministro da Fazenda, o concursado de empresa estatal, o gerente de empresa, o comerciante e o economista do FMI (Fundo Monetário Internacional).
Serão essas as funções de um economista quando tais estudantes chegarem ao mercado de trabalho? Para os autores, a preocupação desses profissionais não deve ser a competição com as máquinas na velocidade de cálculos.
O desafio (como em várias outras profissões) será fazer as perguntas certas, formular problemas relevantes, contar a história por trás dos dados e, com a ajuda dessa ferramenta, criar narrativas que possam se transformar em decisões reais.
Também está lá uma pergunta mais objetiva. Serei bem remunerado na profissão? Os autores dizem que cursar economia costuma abrir as portas para isso, embora reduzir a carreira a um objetivo financeiro seja uma visão um tanto limitada. Mesmo para quem mexe o tempo todo com números.
O foco do livro, como pode ser visto pelas respostas à questão do título citadas anteriormente, é mesmo a visão de que a economia é uma ferramenta para enxergar a realidade, ajudar a pensar ou pelo menos, como diz em tom de humor uma economista citada, “aprender como evitar ser enganados pelos economistas”.
Exemplos de como os números podem ser vistos de várias maneiras estão no relato sobre Delfim Netto, que, recém-empossado no Ministério do Planejamento, em 1979, negou um pedido de verba feito por ele mesmo como ministro da Agricultura, cargo que havia deixado dias antes.
Ou quando um dos autores foi convidado a criticar a política econômica do governo Ronald Reagan (1981-1989), durante um processo seletivo para o Banco Mundial, para depois ser questionado se seria capaz também de defendê-la diante do Congresso daquele país.
Uma preocupação dos autores, aliás, foi fazer um livro que não servisse somente a uma vertente do pensamento econômico. “Esse é um livro que pode ser lido por quem vai fazer Unicamp, UFRJ, PUC etc. Queremos conversar com quem vai frequentar qualquer igreja. Não quero estabelecer distinção”, afirma Giambiagi.
Questionado sobre como vê hoje a profissão, em relação ao que ela representava há quatro décadas, ele afirma enxergar um amadurecimento dos profissionais no sentido de entender que o papel do economista é subsidiário ao processo decisório dos destinos do país. “É fazer diagnósticos e apresentar propostas. A decisão política é tomada por quem tem a legitimidade de quem for eleito.”