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Lollapalooza: Cypress Hill faz show canábico para poucos – 21/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

O Cypress Hill foi escalado para tocar no fim da tarde deste sábado (21) no Lollapalooza. Mas apesar do palco —o Samsung, segundo maior do festival— e horário nobres, o grupo atraiu uma plateia pequena.

Em termos de comparação, o show do Interpol, na mesma hora e palco, na véspera, estava bem mais cheio. Quem também reuniu mais público foi o Foto em Grupo, banda recém-criada que tocou no Samsung neste sábado, só que mais de duas horas antes, sob sol forte.

A falta de apelo pode ser explicada pelo lineup. O segundo dia deste Lollapalooza é encabeçado por Chapell Roan, cantora pop cujos fãs se fizeram identificar pelas maquiagens e chapéus rosa, e tem na escalação outros nomes pop, como Marina e Lewis Capaldi, e da música eletrônica, como Skrillex. O rap ficou relegado a nomes nacionais no pequeno palco eletrônico.

A falta de público não significa que o Cypress Hill não tenha credenciais para estar no Lollapalooza. O grupo foi formado no fim da década de 1980 na região metropolitana de Los Angeles, mas apesar de ter sido gestado nos Estados Unidos possui raízes latinas. Sen Dog nasceu em Cuba, enquanto B-Real tem ascendência mexicana e cubana. Já Eric Bobo é filho do renomado percussionista de jazz latino Willie Bobo, que já trabalhou com gente como Tito Puente e Miles Davis.

Eles nunca pararam de produzir, tendo lançado álbuns regularmente ao longo dos últimos anos, incluindo um projeto recente gravado com a London Symphony Orchestra, no Royal Albert Hall, em Londres. Mas seus sucessos estão todos concentrados na década de 1990.

O álbum de estreia do quarteto, autointitulado, saiu em 1991, e fez barulho na cena underground. Dois anos depois, com o disco “Black Sunday”, o Cypress Hill estreou em primeiro lugar na parada americana, recebeu indicações ao Grammy e cravou seu nome entre os mais importantes do rap americano.

São dessa fase as músicas que dominaram o repertório do quarteto. O show começou com “When the Shit Goes Down”, passou por “Shoot em Up” e chegou a “Tequila Sunrise”, música relaxada que revela a importância do grupo como um dos primeiros nomes latinos a fazer sucesso no rap —as letras inclusive misturam inglês e espanhol.

Em São Paulo, o Cypress Hill mostrou uma sonoridade bastante característica. As músicas têm a cara do rap dos anos 1990, construídas com batidas do tipo “boom bap”, com samples, scratches e breakbeats, quase sempre no estilo g-funk —estilo de rap mais lento e suingado característico da Califórnia, popularizado por nomes como Dr. Dre.

Tudo é temperado pela percussão latina e bateria de Eric Bobo, que faz dela um diferencial do Cypress Hill junto ao dedo nervoso de DJ Lord, dono das picapes no show. Os dois fizeram um momento de improvisação que arrancou aplausos da plateia. A força do grupo ao vivo vem dessa sonoridade e também da química entre B-Real, de flow veloz e voz aguda e anasalada, e Sen Dog, que rima com graves demarcando os compassos.

Mas o que mais é marcante no grupo é a defesa da legalização da maconha. O show teve o cheiro da erva, já que muitas pessoas na plateia aproveitaram para acender seus baseados, enquanto o telão estava repleto de imagens relacionadas à cultura canábica.

O Cypress Hill fez seu nome cantando sobre maconha —algo bem parecido com o que o Planet Hemp estava fazendo no Brasil na mesma época. O grupo brasileiro liderado por Marcelo D2 e BNegão, aliás, é amigo do americano, e ambos têm a legalização da cannabis como bandeira.

A veia canábica é o tema das músicas mais famosas do Cypress Hill, em especial do álbum “Black Sunday”. Mas mesmo essas não empolgaram tanto o público —que sequer parecia conhecê-las. Primeiro veio a versão em espanhol de “I Wanna Get High”, arrastada como a brisa da planta descrita por B-Real na letra, em que ele diz querer ficar muito chapado.

Depois, vieram “Hits From the Bong” e “Insane in the Brain”. A primeira é carregada por um sample do barulho de borbulhas de alguém fumando um bong —espécie de cachimbo de água usado para consumir maconha. A segunda é o maior hit do Cypress Hill, e também um clássico do rap americano daquela década, sobre ficar doidão.

A plateia até cresceu ao longo do show, mas não chegou perto de lotar a pista do palco Samsung. Se a maioria estava conversando e prestando pouca atenção, pelo menos um núcleo pequeno de pessoas mais perto do palco fez o trabalho de levantar as mãos, pular e fazer a festa no show.

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