Num mundo de DJs plásticos e fãs cosméticos, onde o culto à persona infla na mesma medida que o tamanho da lista VIP e das camisetas oversized, Yousuke Yukimatsu é um pária. O DJ japonês tem uma forma muito particular de performar sua música, que traz pela primeira vez ao Brasil no Lollapalooza 2026.
Foi também a primeira vez do DJ tocando “Roots Bloody Roots” do Sepultura para uma plateia de compatriotas da banda, uma escolha de personalidade que diz muito sobre seu estilo sem concessões —quantos DJs optariam por uma escolha dessas?
Muito da ousadia se confunde com a própria trajetória do DJ. Depois de quase 20 anos vivendo como trabalhador da construção civil, sem nunca deixar de lado a discotecagem e a melomania —ele tem 10 mil discos na sua coleção—, Yukimatsu descobriu um câncer maligno no cérebro.
Cirurgias e sessões de quimioterapia vieram, ele se recuperou e, na casa dos 40, com uma cicatriz evidente na cabeça, se tornou figura requisitada no mundo inteiro —muito por culpa de um DJ set gravado no canal Boiler Room que, como poucos, transmitia a intensidade do artista no clube.
“DJ favorito do seu DJ favorito”, como é conhecido, Yusuke tem um arsenal de técnicas reduzido, mas sempre certeiro. Com efeitos de eco acentuados, ele cria grandes expectativas para os clímaces das faixas —foi o caso de quando saiu de intensas linhas percussivas para uma versão de “Kids”, MGMT.
Jogando com o ganho de decibéis de cada lado da CDJ, e não somente com os controles de volumes, o DJ também consegue ocupar espaços com maior velocidade, especialmente em frequências mais altas —vocais, como em “Treat Each Other Right”, de Jamie xx, atacam com mais nitidez.
Na reta final do set, o DJ ainda caminhou por zonas de maior complexidade rítmica, com muitas camadas de percussão, como “Bop”, da australiana Surusinghe. A cereja do bolo foi “Firestarter”, trance hardcore do grupo britânico que já se tornou assinatura de Yusuke.
É fato que tanto essa faixa quanto a seguinte, um remix do merengue “Takati Takata”, são armas conhecidas do DJ. Mas para a pista do Brasil, que o recebia pela primeira vez, era tudo novo.
Levar o novo, o desconhecido, o inexplorado, aliás, é uma das funções do DJ. Em entrevista para o site Resident Advisor publicada em 2025, Yukimatsu brinca: “A cirurgia no cérebro não mexeu com meu gosto musical”. Ainda bem.