É o último show do palco Samsung Galaxy no último dia de Lollapalooza, em São Paulo, e Lorde está de volta ao festival que foi seu primeiro palco no Brasil há mais de uma década, quando ela tinha apenas um hit e um elogio de David Bowie no bolso.
As luzes do palco se apagam, o som que serve de base para “Hammer” se espalha pelo Autódromo de Interlagos e ela aparece —ou só as duas lâmpadas de seus óculos.
A escolha da música de abertura não é por acaso, e resume bem o momento de vida e de carreira da cantora. Na letra, a neozelandesa tenta entender se o que seu corpo sente é amor ou ovulação. Ela canta que queima, canta, trama e dança. E que em alguns dias se sente mulher, em outros homem.
São em viagens como esta que ela embarca ao longo de “Virgin”, álbum que lançou no ano passado e que guia a apresentação de hoje, sua quarta vinda ao Brasil —uma para cada álbum de sua carreira.
A última foi em 2022 no festival Primavera Sound, na turnê de “Solar Power”, sua era “good vibes” que dividiu opiniões. Nenhuma música deste disco apareceu no show desta noite.
Em “Virgin”, ela volta a seus fundamentos sintetizados, dobra a aposta das letras confessionais e retoma o que construiu com “Pure Heroine”, de 2013, e “Melodrama”, de 2017.
A jornada atual de Lorde esmiúça a parte extraordinária e também a mais difícil de se ter um corpo que existe neste mundo. Isso começa pela capa do disco —um raio-x de sua pelve, com um DIU aparecendo— e percorre pensamentos sobre gênero, gravidez, sexo e transtornos alimentares nas letras.
Ela passa o show praticamente intercalando músicas deste novo álbum como “Broken Glass”,
“Shapeshifter” e “If She Could See Me Now” e antigas, como a idolatrada “Team” e seu primeiro hit lançado, “Royals”, que mudou sua carreira. Lorde canta essa praticamente sozinha com o público, num coro que chega a fazer eco no Autódromo.
Hoje com 29 anos, a artista já se consolidou como uma das compositoras mais importantes de sua geração, título que vem em boa parte por causa desta vulnerabilidade de suas letras. “Eu gosto de escrever músicas sobre os sentimentos da vida, os sentimentos que atravessamos. E isso pode ser profundo e feio. E as que eu mais gosto são aquelas sobre como é ter uma crush imensa por alguém”, ela diz antes de cantar a história de amor de “The Louvre”.
A vulnerabilidade também é mais literal às vezes. No hit “Liability”, por exemplo, ela rasga sua blusa, e em “Current Affairs” tira a calça. Em canções como “Man of the Year” e “David”, do álbum mais recente, sua voz vira absoluta protagonista, com instrumentais minimalistas que parecem expandir o palco do festival.
As canções de Lorde estão sempre alinhadas com o zeitgeist. Capturam uma adolescência, depois uma juventude e finalmente o que é se tornar uma pessoa adulta —e o faz como nenhuma outra artista de sua safra, traduzindo em palavras e ritmo um corpo em crescimento físico e emocional. Se fosse um filme, Lorde seria um do tipo “coming of age” que une nostalgia, crueza e imagens bonitas. É o “sabor quente e doce” que ela canta em “Buzzcut Season”.
Ela mesma explica para o público, durante o show, de onde vem essa sensação. “Nós crescemos juntos, passamos pelas mesmas fases, fizemos as mesmas merdas, fomos do feio ao difícil. Estamos habitando o mesmo mundo”, diz.
Ela continua dizendo que às vezes tem medo do mundo. “Ele é diferente do que eu imaginava quando eu tinha 20 anos. Mas quando eu me sento na frente de um grupo de pessoas como esse, cheio de possibilidades e beleza e curiosidade, eu tenho fé”.
Depois de provar que suas músicas novas decolaram com o público brasileiro e se encaixam perfeitamente com seus trabalhos anteriores —o coro de “Favorite Daughter” e “What Was That” ecoou pelo espaço—, ela decidiu encerrar a apresentação com “Ribs”, uma de suas primeiras músicas.
Enquanto Lorde canta em um pequeno palco no meio da plateia que a ideia de envelhecer a deixa com medo —ou a deixava há 13 anos—, seus fãs jogam copos de cerveja para o alto, pulam e cantam na maior celebração de juventude que o Lollapalooza deste ano viu.