A diretora carioca Lúcia Murat tem se notabilizado por filmes que tratam da ditadura militar no Brasil. Nessa seara, lançou documentários como “Que Bom te Ver Viva”, de 1989, e “Uma Longa Viagem”, de 2011, e obras de ficção, como “O Mensageiro”, de 2023.
Menos conhecido é seu interesse pelas inquietações e angústias dos adolescentes de comunidades cariocas, que permeiam o drama “Maré, Nossa História de Amor”, de 2008. Há quase três décadas, a cineasta acompanha as criações dos jovens atores do grupo Nós do Morro, com quem trabalhou em “Quase Dois Irmãos”, de 2004.
Murat reencontra a temática adolescente em “Hora do Recreio”, documentário exibido no Festival de Berlim no ano passado, agora nos cinemas brasileiros.
O projeto começou a ganhar vida há oito anos. Inicialmente, a diretora planejava levar sua pequena equipe de filmagem para escolas públicas do Rio a fim de ouvir os estudantes. Nesse primeiro momento, também pretendia registrar uma encenação de “Clara dos Anjos”, romance de Lima Barreto em que o racismo ocupa papel central.
Nos anos seguintes, porém, o documentário ganhou rumos um tanto inesperados. “Surgiram dificuldades típicas da realidade brasileira, que fizeram o filme se transformar”, diz Murat.
Embora tenha insistido por um ano e meio, a equipe não obteve autorização para filmar os alunos de ensino médio em uma escola estadual próxima do Morro da Providência. A saída foi convidar alguns desses estudantes para ocupar um espaço que se assemelha a uma sala de aula, um artifício apresentado para quem vê o documentário.
Confiantes, muito em virtude do apoio dos professores, os adolescentes revivem seus dramas. Falam, por exemplo, de violência familiar e bullying no ambiente escolar. Há obviamente tristeza no ar, mas também vivacidade e humor.
Além da coragem dos estudantes, a cineasta ressalta que “aqueles meninos estão ali porque as mães deles deram a volta por cima”. São vários os episódios lembrados em “Hora do Recreio” de mulheres agredidas por maridos ou ex-maridos.
A equipe de Murat também não conseguiu filmar no segundo colégio, próximo do Complexo do Alemão. Desta vez, operações policiais levaram à suspensão das aulas. Para ocupar esse espaço, jovens artistas dos grupos Vozes e Arteiros, foram convidados a apresentar uma performance sobre medo. O resultado é tão simples quanto pungente.
Só na terceira escola, em Irajá, foi possível levar adiante o que havia sido planejado, uma discussão dentro da sala de aula. É uma turma do ensino fundamental, portanto mais jovem do que as anteriores. Chamam a atenção principalmente os depoimentos das meninas sobre a rejeição aos cabelos crespos em alguns setores da sociedade.
A montagem de “Clara dos Anjos”, obra concluída em 1922, acontece na quarta e última instituição de ensino, no Morro do Vidigal. Em meio à preparação da peça, jovens do Nós do Morro e de outros grupos de comunidades discutem assuntos como discriminação racial e gravidez precoce.
Os atores se apropriam da história narrada por Lima Barreto, dando a ela um tom mais coloquial e contemporâneo. Segundo Murat, “eles começaram a brincar com o texto e, dois meses depois do início dos ensaios, tinham controle total do livro”.