Ninguém vai em busca de um hit certeiro ou uma melodia inesquecível num disco de Marina Lima hoje —o auge criativo desta que já foi uma das maiores cantoras do pop brasileiro ficou para trás, e seu legado para a cultura nacional, com obras-primas como “Acontecimentos”, “Fullgás” e “‘A Francesa”, é inconteste.
Mas não dá para se contentar com a sonolência que ela entrega em seu novo disco, “Ópera Grunkie”, o 18º álbum de estúdio de sua longeva carreira, lançado quando ela completa 70 anos. “Grunkie”, segundo o material de divulgação, é um termo popularizado pela cantora para “definir sua tribo: pessoas livres, inteligentes, talentosas e corajosas”.
Vamos esquecer que quase ninguém conhece esta expressão e nos ater às músicas. O álbum soa como uma sequência de bases eletrônicas sem sal com vocais desencaixados por cima —preguiçoso, mesmo. No meio disso há músicas que não se decidem se são canções ou colagens sonoras, como “Partiu”, e outras composições com letras bobas, a exemplo de “Samba pra Diversidade”.
Uma das faixas mais constrangedoras do disco é “Olívia”, música com a sonoridade de uma festa, com gente conversando ao fundo e tilintar de taças, em que o narrador vai numa celebração de “Olivia, a mulher da [revista] Vejinha”, e pergunta na porta se seu nome está na lista. Ele entra e, a certa altura, se dá conta de que o regabofe desandou. Sua amiga justifica, dizendo que a anfitriã é “aquariana, né gente, daqui a pouco quer uma coisa, quer outra”.
Fora a letra vergonhosa, é inevitável pensar em outras bandas que retrataram a badalação da vida noturna em forma de música com muito mais finesse, como a dupla paulistana No Porn, a banda carioca Vera Fischer Era Clubber e os também paulistanos do Teto Preto.
Do Teto Preto, Marina Lima recrutou a cantora e performer Laura Diaz para cantar em “Collab Grunkie”, uma experimentação eletrônica mal-resolvida de pouco mais de dois minutos que termina com a voz rouca e grave de Fernanda Montenegro dizendo “nada consola uma velhice idiota, olha bem”.
A Marina Lima que conhecemos aparece em “Só que Não”, uma bela faixa, a melhor do disco, onde a orquestração se encontra com os sintetizadores e a voz da cantora entoa as dores de um amor. É como se fosse uma atualização, para 2026, de tudo o que ela fez e faz tão bem, e uma das razões pelas quais ainda lota shows com fãs de diferentes gerações.
Outro ponto alto é “Um Dia na Vida”, em que Marina Lima canta com Ana Frango Elétrico. O contraste da voz de ambas, Marina com seu timbre curtido pelo tempo e Ana com o vigor da juventude, faz muito sentido. Mas só duas faixas empolgantes nas 12 do disco é muito pouco —não enche nem um EP.
No ano passado, a cantora sofreu a perda de seu irmão, o poeta Antonio Cicero, que optou por dar fim à vida com o suicídio assistido. Há três momentos no álbum em memória do autor, que também escreveu diversas letras de Marina Lima.
Os dois tocantes são a curtíssima “Grief-Stricken”, de menos de um minuto, em que a cantora sussura um bonito poema em inglês de Antonio Patriota, e “Perda”, na qual os imortais da Academia Brasileira de Letras Eduardo Gianetti e Antônio Carlos Secchin leem trechos de poemas de Cicero junto ao professor e filósofo Fernando Muniz.
Como todo artista com uma obra extensa que abarca décadas, Marina Lima teve discos ótimos e outros, menos. Desde “Clímax”, trabalho de 2011 representativo de sua mudança do Rio de Janeiro para São Paulo, a cantora entrega álbuns medianos, mas que ainda assim tinham alguma unidade estética.
Isso não acontece no novo trabalho, uma obra desconjuntada, carente de uma ideia bem-desenvolvida. “Ópera Grunkie” é um disco de música pop e de experimetações sonoras, ao mesmo tempo, mas não convence o ouvinte nem como um, nem como outro.