A estilista Martha Medeiros inaugura nesta quinta-feira (19) uma escola de arte em Alagoas. A ideia é valorizar técnicas artesanais brasileiras, como fez com a renda do sertão nordestino que a consagrou no mercado de luxo, em um espaço que mira turistas da Rota Ecológica de Milagres.
A Escola de Arte Mãos de Martha reúne uma casa de três andares, pavilhão de exposições, área ao ar livre e 45 alojamentos. Lugar idealizado pela alagoana que colocou a mão na massa no todo e em detalhes, como pedir para escrever em uma das paredes o lema “o futuro tem coração antigo”.
“A escola está repleta de coisas que me encantam”, diz ela, que decorou o térreo do complexo com obras do mestre do couro Espedito Seleiro, mas também com peças de bordadeiras do sertão do Ceará.
Acervo cultural que será visitado nesta semana em São Miguel do Milagres por autoridades como a primeira-dama de São Paulo, Regina Nunes, a presidente do Supremo Tribunal Militar, Maria Elizabeth Rocha, e celebridades como o ator Bruno Gagliasso, padrinho da iniciativa.
Um dos primeiros cursos anunciados pela escola é o da stylist Flávia Pianovski, que vai ensinar em junho a “dar uma imagem internacional ao seu produto”.
Mas nem só artesanato se ensina na escola de Martha. Cursos de marcenaria, jardinagem, manutenção de piscinas e serviços gerais serão ofertados em resposta aos desafios sociais de uma região turística cujos trabalhadores recebem em média um salário-mínimo.
“Empresários da região reclamavam da falta de mão de obra qualificada. Comecei a treinar cozinheiras, garçons, camareiras, jardineiros, piscineiros. As pessoas só precisam de oportunidade”, diz a estilista, sobre a demanda crescente de um dos points do verão brasileiro.
Foi assim que, há cinco anos, a mesa da sala de sua casa de veraneio em Milagres virou bancada para aulas de crochê e, a cozinha, espaço de produção de iguarias regionais, com a passagem de 500 alunos por ano na Casa Martha Medeiros —propriedade de 3.000 m que recebe turistas em luxuosas acomodações na sofisticada vila a 100 km de Maceió.
Até que o espaço caseiro ficou pequeno para tantas turmas que vinham fazer os cursos gratuitamente. Da acomodação em alojamentos de 84m com ar-condicionado às refeições diárias, é tudo bancado pela alagoana, que agora pensa em trazer parceiros para ajudar na empreitada da escola de arte e ofícios.
“Detesto entidade beneficente, gosto é de empreendedorismo social”, diz a estilista, que fundou o Instituto Martha Medeiros, braço social da grife que leva seu nome e atua em parceria com 450 rendeiras nordestinas, oferecendo trabalho digno e remunerado.
E é durante as aulas que a ex-vendedora de artesanato que veste celebridades em Hollywood ensina: criatividade que não dá lucro não precisa existir.
“O difícil não é fazer, o difícil é acreditar que alguém vai comprar seu produto. Aqui eles aprendem técnicas para agregar valor a suas peças, melhorar o acabamento, quebrar padrões”, afirma a estilista.
Exemplo disso é a paraibana Mariluce Azevedo, 59, que passou uma semana na residência artística à beira-mar, depois do convite feito por Martha em uma festa de São João. Agora que aprendeu a decorar sandálias com crochê, passou a lucrar mais.
“A mesma peça vale três vezes mais, fica encantadora. E as pessoas levam sem perguntar o valor”, afirma a artesã de Campina Grande que superou uma depressão com sua arte.
“Em 2021, perdi pai e mãe. Só queria ficar no quarto. Ouvi de alguém que era para fazer algo que eu gostasse. Fiz crochê. Você pega amor às peças e vai esquecendo dos problemas.”
Mariluce voltou para casa com a mala cheia de materiais doados pela estilista. “Gastei R$ 33 nesses oito dias”, diz ela, que teve o vôo até Maceió financiado pelo governo do estado da Paraíba.
Outro hóspede garimpado por Martha é o paulista Luiz Gustavo das Dores, 25, há quase 40 dias alojado em Milagres. Ele vem produzindo um painel com gesso, renda, madrepérolas e conchas que retrata o fundo do mar em uma das paredes da escola.
Foi uma troca de mensagens no Instagram que levou Luiz de Rio Claro (SP) a Maceió em fevereiro deste ano.
“Martha viu um vídeo de obras que criei [uma luminária de polvo e um quadro de gatos] e perguntou se eu passaria 15 dias na escola. Fiquei em pânico. Nunca tinha viajado de avião.”
Com ela, aprendeu a valorizar seus produtos. “Ela ficou chocada com o preço que eu cobrava”, diz Luiz, que pedia R$ 180 por uma luminária. “Dá uma esmola para o artista”, escreveu no vídeo com mais de 14 mil curtidas, que o levou à escola de arte, de onde vai sair precificando suas peças por mínimo R$ 250.
Filho de uma profissional de reciclagem, ele conta que desde criança gostava de mexer com argila, e que ouvia da mãe que fazia bagunça com barro. “Agora ela está orgulhosa de mim.”
É para que talentos como Luiz e Mariluce se fortaleçam, ganhem mais dinheiro e tenham uma vida melhor, em uma estratégia genuína de inclusão produtiva, que Martha tem se dedicado, depois de se desligar do dia a dia de sua marca de luxo.
“Em época de inteligência artificial e coisas tão superficiais, é bom ver um artista valorizando sua arte, aprendendo a sonhar. E eu também estou realizando um sonho.”