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Master usava dinheiro em espécie em operações – 10/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

Um RIF (relatório de inteligência financeira) sobre transações do Banco Master enviado à CPI (Comissão Parlamentar de Inquérito) do Crime Organizado no Senado em março aponta a existência de operações que incluíam dinheiro vivo, garantias com valores inflados em empréstimos e destinação de recursos a empreendimentos associados a Nelson Tanure, investigado pela PF (Polícia Federal) no caso.

O relatório foi elaborado pelo Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão do governo federal que atua em prevenção e detecção do crime de lavagem de dinheiro. A legislação sobre o assunto obriga que instituições financeiras comuniquem a existência de operações de grande porte ou que contenham indícios de transações suspeitas.

O RIF é um instrumento bastante usado em investigações da PF, do MPF (Ministério Público Federal) e em CPIs por conter apontamentos rotineiros de transações financeiras de grande monta e indícios de irregularidades em parte dos comunicados feitos.

No RIF referente ao Master, que compreende o período de 2022 a 2025, uma parte do documento trata de operações financeiras em espécie superiores a limites definidos em normas. Essa menção a operações em espécie diz respeito a uso de dinheiro vivo em algum momento das transações, segundo investigadores ouvidos pela reportagem.

Procurada por email, às 17h02 desta terça-feira (7), e por mensagens de WhatsApp, às 17h17 do mesmo dia, a defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro não respondeu aos questionamentos da reportagem.

A defesa de Tanure afirmou que o empresário jamais estabeleceu relação societária com o Master e que não houve participação oculta no banco. “Foi apenas cliente nos últimos anos”, disse.

Um dos casos listados no RIF envolve uma empresa de Campo Grande do ramo de terraplanagem e aluguel de máquinas, a BTG Empreendimentos, Locações e Serviços. A operação, feita em setembro de 2024, somou R$ 468,8 milhões. Conforme o RIF enviado à CPI, envolveu, em algum momento, recursos em espécie.

Em janeiro, reportagem publicada pela Folha mostrou que 36 empresas tomaram empréstimos suspeitos com o Master, o que passou a ser investigado pela PF. Na lista das empresas está a BTG Empreendimentos.

Parte dos recursos dos empréstimos foi injetada nos fundos DMais e Bravo, administrados pela Reag, do empresário João Carlos Mansur. Conforme as investigações, a suspeita é que o dinheiro das transações tenha sido usado para bancar créditos podres e inflar ativos financeiros do Master.

A reportagem não conseguiu contato com a BTG Empreendimentos. A empresa foi procurada por três números de telefone, nesta segunda (6) e terça (7), sem sucesso. Não houve resposta a dois e-mails enviados na segunda.

O RIF faz menção a recursos em espécie em uma operação do Master com Marcelo Cohen e Belvitur Viagens, no valor total de R$ 6 milhões em março de 2024. Cohen é dono da Belvitur e fundador e presidente da BeFly, uma gigante do mercado de turismo.

A Folha mostrou, em reportagem publicada no último dia 29, que o modelo de aquisições de marcas da BeFly foi impulsionado por fundos ligados a Vorcaro, dono do Master até a liquidação da instituição, em novembro do ano passado. Entre esses fundos está o B10.

O RIF enviado à CPI faz duas menções a operações com o B10 Fundo de Investimento, uma de R$ 98,8 milhões em agosto de 2024 e outra de R$ 218,4 milhões em outubro de 2025, 40 dias antes da liquidação do Master pelo Banco Central.

Em nota, a BeFly afirmou que a operação mencionada se refere a um empréstimo “regularmente firmado, com garantia de imóvel e registro em cartório, em conformidade com a legislação vigente”. “A empresa reitera sua atuação transparente, regular e alinhada às melhores práticas de mercado.”

O relatório também faz menção a recursos em espécie na citação à operação –no valor de R$ 3,89 milhões– entre o Master e a produtora Amando Vidas, cujos sócios são André Valadão e Cassiane Valadão. Em nota, a Amando Vidas negou ter recebido do banco Master qualquer valor em espécie nos montantes mencionados.

André é pastor e líder da Igreja Batista da Lagoinha, em Belo Horizonte. Uma filial da igreja, num bairro nobre da capital mineira, tinha como pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, também investigado pela PF por suspeitas de fraudes nas operações do Master.

A reportagem procurou Valadão por mensagens e telefonemas, na terça (7), mas não houve resposta.

Um dos pontos do RIF traz um detalhamento de suspeitas numa operação de crédito entre o Master e a SI 02 – Empreendimentos e Incorporações Imobiliárias, no valor de R$ 387,3 milhões, entre agosto de 2023 e julho de 2024.

Conforme o relatório elaborado pelo Coaf, o valor da transação é incompatível com o porte da empresa que tomou o crédito e com o tamanho da empresa que ofertou as garantias. O capital social da SI 02, informado à Receita Federal, é de R$ 2.000.

Segundo o RIF, 231 imóveis foram dados em garantia, “com valores de avaliação muito superiores ao seu valor de mercado e ao valor de recente aquisição”. Lotes foram vendidos por R$ 9.300 cada, em 2024, enquanto a avaliação na garantia oscilou entre R$ 900 mil e R$ 6 milhões, conforme o relatório.

O RIF faz uma segunda menção à SI 02, sobre operação no valor de R$ 410,9 milhões, em fevereiro de 2024.

O email informado no cadastro na Receita, como contato da SI 02, não está ativo; a reportagem tentou enviar uma mensagem na segunda. A construtora associada ao email também foi procurada no mesmo dia, mas não houve resposta.

O RIF lista ainda quatro menções a operações envolvendo a Lormont Participações, de Tanure, no valor de R$ 124,3 milhões, e três menções relacionadas à WNT Gestora de Recursos e a fundos de investimentos, cujas operações somam R$ 377 milhões. A WNT administra um fundo de Tanure; os dois têm atuações conjuntas.

Segundo a PF, há indícios de que Tanure era sócio oculto do Master, com influência em fundos e estruturas societárias complexas.

Por meio da Lormont, Tanure foi cliente do Master, “sempre de modo profissional, legítimo e devidamente contabilizado”, afirmou a defesa.

No caso da WNT, ela é gestora de um fundo em que o empresário é cotista, conforme a defesa de Tanure. “O apontamento de operações financeiras nos relatórios do Coaf com essas gestoras apenas ratifica o quadro de transparência e idoneidade de seus investimentos, que não apresentam absolutamente nenhuma irregularidade.”

A WNT disse, em nota, ter atuado como gestora do fundo Structure, na aquisição de carteiras de crédito consignado, o que incluiu operações com o Master, “em condições regulares e com as devidas liquidações financeiras”. “A empresa não possui, nem nunca possuiu, qualquer relação societária, direta ou indireta, com Nelson Tanure.”

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