Michel Gondry descobre sua verdadeira vocação. O cineasta francês, de sucessos indies como “Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças” e “Nós e Eu”, e videoclipes descolados para artistas como The White Stripes e Radiohead, encontra, num presente para sua filha, sua melhor expressão artística.
Trata-se de “Maya, Me Dê um Título”, animação fantástica nos moldes das animações sessentistas da antiga Checoslováquia –referência assumida, mas não explicitada, na abertura. Uma animação, faltou dizer, com pequenos toques de live action.
Pai e filha vivem em continentes diferentes. O modo encontrado para se comunicarem é por meio dessas histórias, inspiradas pela filha, criadas e animadas pelo pai em stop motion.
Por exemplo: Maya pede um filme em que ela apareça vendo um terremoto. As produções “Les films du papa” então oferecem o pequeno e delirante “Terremoto”, para agradar a criança.
O público-alvo adorou —ou seja, Maya Gondry—, assim como adorou todos os outros filmes unidos neste longa. Qualquer outra aprovação seria bem-vinda, mas secundária.
O episódio do ketchup é um dos mais malucos, dignos do velho desenho do Super Galo que enlouquecia as crianças dos anos 1980 com coisas como uma peruca gigante que recebe contas para se preocupar e se torna uma careca gigante, que a população aproveita como um ginásio esportivo, e por aí vai.
Nesse mesmo espírito, em “Maya, Me Dê um Título”, uma garrafa de ketchup cai no mar. Um peixe arranca a tampa da garrafa e o ketchup se espalha pelo oceano. Temendo um desastre ambiental de grandes proporções, Maya e os demais tripulantes importam da Bélgica milhões de batatas fritas, para que o ketchup grude nelas e eles possam, tirando as batatas fritas do mar, evitar o desastre.
É com esse tipo de imaginação fértil, que crianças costumam adorar, que o pequeno filme de Gondry se desenvolve, provocando um sorriso em quem estiver disposto a se divertir com o nonsense da coisa toda.
Certo, é principalmente para crianças. Mas qual filme anterior de Gondry poderíamos dizer que seria propício a adultos que não estivessem dispostos e duas horas de infantilidade conceitual e visual? “Brilho Eterno”? Sério? Pense bem.
Não é demérito para Gondry o entendimento de que seu cinema seria bem-sucedido, porque tivemos, nas últimas décadas, uma incrível infantilização do público.
Pelo contrário: ele foi esperto para perceber isso e explorar o filão. Que aceitemos a singeleza infantil como escapismo neste mundo violento e cruel, é compreensível.
Por outro lado, é por causa da infantilização exacerbada que bobagens como “Sonhando Acordado” ou “Rebobine Por Favor” se tornam obras cultuadas e Gondry chegou a ser considerado um cineasta genial.
“Maya, Me Dê um Título”, nesse aspecto, promove um movimento contrário. É claramente infantil. Mas seu “nonsense” e algumas implicações de sua trama fragmentada o levam para um campo surpreendentemente adulto, dependendo do modo de olhar.
Digo, obviamente não é um filme para adultos. Mas é um filme que adultos podem gostar sem a necessidade de se tornarem um pouco crianças. Não é como as animações da Disney, por exemplo. Existem nele nuances mais complexas, originárias muito mais – é possível – da liberdade para explorar a imaginação do que da intenção de falar com todas as idades.
O sucesso desta animação modesta, que já teve uma continuação em 2025, vem de um reconhecimento de seu lugar na indústria de cinema e de suas possibilidades de criação dentro de um esquema viciado envolvendo festivais, circuito, streaming e recepção.