Home » Médicos recém-formados sofrem por emprego em capitais – 21/03/2026 – Economia

Médicos recém-formados sofrem por emprego em capitais – 21/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

“Eu mando mensagem para todo mundo e não consigo trabalho.” A médica Ana Paula Hilgemberg, 25, se formou há cerca de três meses pela PUC-PR (Pontifícia Universidade Católica do Paraná) com financiamento estudantil, e enfrenta dificuldades para encontrar plantões e trabalhos fixos em Curitiba.

Quando entrou no curso, acreditava que seria mais tranquilo ganhar dinheiro no campo da medicina. “Era uma coisa subentendida por todo mundo. Vou ganhar R$ 30 mil, R$ 40 mil por mês, então o investimento [da faculdade] valeu a pena, tudo certo.”

Hoje, tem apenas dois plantões marcados para o fim de fevereiro e nenhuma previsão de renda para pagar a próxima parcela da dívida. Sem renda fixa, ela voltou a trabalhar com marketing e produção de conteúdo para conseguir arcar com os compromissos.

Ana Paula concorre com as dezenas de milhares de novos médicos que chegam à força de trabalho brasileira todos os anos.

Apenas em 2025, o saldo de novos profissionais cresceu em 35,9 mil, para 635,7 mil, o maior número da história, segundo estimativa do levantamento Demografia Médica, da Faculdade de Medicina da USP (Universidade de São Paulo).

Os dados do estudo mostram que, de 2020 ao ano passado, 154,8 mil médicos ingressaram no mercado, em um crescimento de 32%. Entre 2004 e 2024, segundo o levantamento, o número de faculdades de medicina saltou de 143 para 448.

É uma conta que não fecha principalmente nas capitais e regiões metropolitanas, onde se concentra a maior parte dos profissionais do país. Em relatos feitos nas redes sociais, a dificuldade de conseguir plantões é tamanha que virou piada.

Recém-formados relatam até uma técnica para garantir plantão: deixar a palavra “pego” digitada previamente em grupos de WhatsApp que oferecem vagas para disparar assim que uma oportunidade surgir.

“Era 18h, o plantão era às 19h. Às 18h01, já tinha gente falando ‘pego, pego, pego’”, descreve Alice Moraes, 24, formada no final de 2024 pela Faculdade Pernambucana de Saúde e moradora do Recife.

“Quando lançam uma oportunidade de emprego [em grupos da internet], não demora mais de cinco segundos para ser preenchida”, diz Tais Cristine Lubenov Martins, 27, formada há dois meses pela FURG (Universidade Federal do Rio Grande).

Tais ficou hospedada na casa de uma amiga em São Paulo para fazer cursos de atuação e agora busca oportunidades em Florianópolis (SC). “Às vezes o desespero toma conta, pois continuar dependendo da rede de apoio nessa idade não é um sentimento fácil.”

O país tem hoje uma taxa de 2,98 médicos a cada 1.000 habitantes, maior do que Estados Unidos e Coreia do Sul, mas ainda menor do que a média nos países-membros da OCDE (Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico), de 3,70. Dentre as 47 nações pesquisadas pelo Demografia Médica neste indicador, o Brasil tem a 33ª maior densidade.

A desigualdade geográfica da distribuição de médicos pelo território nacional contribui para as dificuldades enfrentadas pelos recém-formados, já que o interior possui um número muito menor de profissionais.

Enquanto o estado de São Paulo tem 3,76 médicos por 1.000 habitantes, por exemplo, essa relação é de 6,8 na capital, segundo o Demografia Médica. Minas Gerais é um exemplo ainda mais extremo: o estado possui 3,49 médicos a cada 1.000 habitantes, e Belo Horizonte, 9,98.

O presidente do Sindhosp (Sindicato dos Hospitais, Clínicas e Laboratórios do Estado de São Paulo), Francisco Balestrin, acredita que as expectativas dos médicos, somadas às promessas que faculdades privadas fazem aos alunos, nem sempre são concretizadas, especialmente porque médicos se formam mais tarde, devido à duração e dificuldade dos cursos.

“O jovem que fez uma faculdade de medicina tem algumas aspirações de formação, conhecimento, vida conjugal. Quando, eventualmente, são convidados a trabalhar em uma cidade do interior, fica mais difícil, porque pessoas nessa altura da vida, já formadas e com 20 e poucos anos, gostariam de, por exemplo, colocar os filhos em boas escolas”, diz.

A mineira Yasmim Lacerda, 25, conseguiu se inserir no mercado após indicação de uma amiga, mas afirma que as capitais e regiões metropolitanas estão saturadas. “Não tem espaço para absorver a quantidade de médicos que têm se formado”, diz.

Para ela, a residência —treinamento em serviço para médicos graduados na qual os interessados escolhem uma área para se especializar— se tornou praticamente obrigatória. “É o que vai garantir uma melhor oportunidade de vida.”

Para o presidente do Sindhosp, o mercado de médicos generalistas, sem especialização definida, não é mais o que era antes. “Ainda existe, claro, e é importante, mas não existe mais alguém que consiga fazer o diagnóstico de tudo. Imagina a quantidade de patologias oncológicas, por exemplo. Você se sente melhor quando você vai no oncologista, ou num ginecologista”, afirma.

Mas há dificuldades também para conseguir residência. Segundo o Demografia Médica, a quantidade de estudantes de medicina no país saltou 71% entre 2018 e 2024, de 168 mil para 288 mil. Enquanto isso, o total de residentes aumentou apenas 26%, de 38 mil para 48 mil.

“Uma parte grande dos médicos não se especializa porque não há vagas de residência médica. Essa é uma discussão importante: o grande número de generalistas”, diz Mario Scheffer, professor do departamento de saúde preventiva na USP e coordenador do Demografia Médica.

Em 2024, a região Sudeste apresentava a maior proporção de programas de residência médica (49,5%), seguida do Sul (19,4%) e do Nordeste (18,5%). Quase um quarto dos programas (23,8%) encontra-se no estado de São Paulo.

A falta de especialização é uma das dificuldades citadas por hospitais na absorção de mão de obra.

“O Hospital Santa Catarina Paulista não tem absorvido profissionais ainda sem formação complementar”, afirma Renato José Vieira, diretor técnico da instituição. Ele acrescenta que o hospital mantém programas de residência para estimular a formação de jovens médicos.

Os hospitais Oswaldo Cruz e Sírio-Libanês também disseram que não contratam médicos sem especialização.

Uma médica que pediu para não ser identificada afirmou à reportagem que chegou a organizar uma planilha com dezenas de contatos de escalistas e hospitais. “Muitas pessoas nem respondem mais”, afirma. Também relata atrasos frequentes e casos de não pagamento. “O médico que se previne entra em ‘grupo de calotes’, onde você fica sabendo quais lugares não pagam.”

A remuneração para quem chega ao mercado também é apontada como ruim pelos recém-formados. “O valor do plantão é o mesmo de 15 anos atrás. Já tem regiões do interior que querem pagar R$ 700 por 12 horas, basicamente a metade do que era”, diz Ana Paula.

O rendimento médio mensal de todos os médicos no Brasil foi de R$ 36.818 em 2022, segundo o Demografia Médica. No mesmo período, a remuneração média do trabalhador brasileiro formal foi de R$ 3.390, segundo a Rais (Relação Anual de Informações Sociais).

Scheffer avalia que o momento é de pleno emprego no setor, diferentemente do cenário de uma década atrás, quando era difícil contratar médicos nas periferias.

Na avaliação dele, entretanto, a super oferta é restrita a algumas situações. “É possível que haja super concentração de médicos em alguns grandes centros. Mas por enquanto há mercado suficiente para absorver todos os médicos”, pondera.

Parte do problema é que muitos dos novos cursos criados nos últimos anos não atendem aos requisitos mínimos exigidos pelo Ministério da Educação (MEC).

Dados da pasta divulgados no mês passado mostram que, dos 304 cursos de medicina de ensino superior que participaram do Enamed (Exame Nacional de Avaliação da Formação Médica) em 2025, 99 (ou 32%) obtiveram notas 1 e 2 e são considerados insatisfatórios. Esses cursos passarão por ações de supervisão da secretaria de regulação e supervisão da pasta.

“Exames de abrangência nacional têm apontado possíveis fragilidades na formação técnica inicial, o que naturalmente suscita debate sobre a qualidade da formação médica no país”, diz Vieira, do Hospital Santa Catarina – Paulista.

A projeção do Demografia Médica é que o número de médicos, que hoje estima em 635,7 mil, continuará crescendo e alcançará 1,15 milhão em 2035.

Autor Original

You may also like

Leave a Comment