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Medidas contra importação de aço da China podem ajudar CSN – 07/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

As medidas do governo brasileiro contra fabricantes de aço da China podem dar um respiro à CSN (Companhia Siderúrgica Nacional), que vive uma das piores crises financeiras de sua história. Criada ainda na Era Vargas, a empresa está sob pressão de investidores devido a altíssimas dívidas geradas a partir de projetos de expansão do grupo e da forte concorrência chinesa no mercado nacional.

Analistas de mercado apontam que a CSN já vai se beneficiar nos próximos meses das medidas anunciadas pelo governo federal em fevereiro contra siderúrgicas chinesas. Na ocasião, o Mdic (Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços) impôs tarifas antidumping por cinco anos ao aço vendido por empresas da China.

No comércio exterior, dumping é quando uma empresa exporta produtos por preços abaixo do custo de produção, provocando competição desleal no mercado internacional. A prática é considerada ilegal por organismos internacionais, e desde 2024 vinha sendo atribuída a siderúrgicas chinesas por parte das companhias brasileiras.

O impacto do aço barato chinês no mercado nacional afetou praticamente todas as siderúrgicas brasileiras, que viram os produtos importados alcançarem 30% das vendas internas de aço e, consequentemente, diminuírem seus lucros. O efeito é ainda maior na CSN: como produz aços com maior valor agregado, vê o frete dos concorrentes ser menos significativo no preço final.

“Estamos vivendo um desafio de juros estratosféricos e competição de produtos importados de forma desorganizada e desnecessária que compromete muito o eventual crescimento e investimentos das empresas empreendedoras”, afirmou o presidente e controlador da CSN, o bilionário Benjamin Steinbruch, a investidores um mês antes do governo federal impor as medidas antidumping.

Agora, com tarifas adicionais que variam de US$ 323 a US$ 670 por tonelada de aço chinês importado, a CSN deve voltar a ver suas receitas subirem no curto prazo. Procurada, a empresa não respondeu aos questionamentos da Folha sobre os efeitos das medidas.

“Essas medidas antidumping podem ajudar um pouco o setor como um todo, ainda que tenha riscos de os volumes que vêm da China hoje serem substituídos por outras regiões, como Coreia do Sul”, afirma Daniel Sasson, analista de commodities do Itaú BBA. Os sul-coreanos são o segundo maior exportador de aços planos para o Brasil, justamente o produto comercializado pela CSN.

Até o terceiro trimestre de 2025, a CSN tinha uma dívida líquida de R$ 37,5 bilhões, 3,14 vezes o Ebitda da empresa, uma métrica que calcula os lucros antes de juros, impostos, depreciação e amortização. Em comparação, Usiminas e a Gerdau, concorrentes brasileiras da CSN, têm alavancagens de 0,16 e 0,81, respectivamente.

Pesa ainda o fato de que cerca de 75% da dívida da CSN precisa ser paga até 2028. Dados mais recentes serão divulgados na próxima quarta-feira (11), quando a empresa apresentará o balanço do quarto trimestre de 2025 e o consolidado anual.

Para diminuir a dívida, a CSN anunciou em janeiro que pretende ainda neste ano se desfazer de ativos importantes do grupo, como a produção de cimento e parte de suas operações em infraestrutura, como portos e ferrovias no Sudeste. De acordo com Steinbruch, a CSN está em busca de parceiros até mesmo para a produção de aço, o setor-mãe da companhia.

A crise financeira da CSN fez o bilionário voltar atrás nos planos de crescimento do grupo. Nos últimos cinco anos, a empresa gastou ao menos R$ 9,7 bilhões com aquisições de empresas de energia, logística e cimentos, operações que analistas veem como uma das causas do alto endividamento da companhia.

Agora, o bilionário procura interessados em comprar toda sua operação de cimentos e parte da logística para arrecadar entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões. As vendas, segundo a CSN, permitiriam à companhia reduzir sua dívida para R$ 19,5 bilhões, 1,95 vez maior que seu Ebitda. A métrica agradaria as principais agências de rating do mundo –nas últimas semanas, Moody’s e Fitch rebaixaram as notas da companhia.

Steinbruch também quer encontrar parceiros para a siderurgia, que na visão de uma pessoa a par do assunto precisa de ao menos US$ 1 bilhão para se modernizar. No final do ano passado, a CSN fechou um acordo com o BNDES para investir R$ 1,13 bi na modernização da planta em Volta Redonda (RJ), a mais importante da companhia.

Mas a missão para diminuir as dívidas não deve ser fácil. Apesar de ter ativos importantes de infraestrutura, analistas avaliam que a CSN terá dificuldades em vender uma carteira tão heterogênea para um mesmo comprador, como é desejo do grupo –ainda mais de forma minoritária.

“Talvez não seja tão trivial você achar algum investidor que queira ser seu parceiro e ter exposição a esse grupo de ativos tão diferentes. Já a venda do negócio de cimento, por ser um negócio só, parece mais simples”, afirma Sasson. Nas contas do Itaú BBA, a venda total dos ativos de cimento poderia gerar R$ 10 bilhões ao grupo.

Além disso, uma outra pessoa que acompanha o setor de aço há décadas diz ser improvável que alguma empresa opte por ser parceira minoritária de Steinbruch, que ganhou fama de brigão nos últimos anos com sucessivas disputas empresariais. Ele carrega no currículo desavenças com Vale, Ternium, Gerdau e as japonesas Nippon Steel e Sumitomo.

Hoje, mais da metade do lucro da CSN vem da mineração. Artur Bontempo, analista de minério de ferro e aço na Wood Mackenzie, lembra que para se manter firme no setor, a CSN precisará nos próximos anos modernizar sua planta de processamento de minério. A empresa também pretende investir R$ 13 bilhões em um projeto de expansão, o que tende a pressionar ainda mais as contas do grupo.

“A CSN primeiro precisa cuidar dessa expansão para depois cuidar da operação antiga e ver o que eles vão fazer para continuidade da operação”, afirma Bontempo. A empresa é a sétima maior exportadora de minério de ferro do mundo e a segunda maior produtora do Brasil, atrás apenas da Vale.

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