Como dizer adeus? Esta questão rondava os pensamentos de Dave Mustaine, o líder do Megadeth, enquanto ele gravava o último disco da banda. Último, literalmente, porque o recém-lançado “Megadeth” marca a despedida destes ícones do thrash metal, depois de 43 anos de serviços prestados à música pesada.
Mas o 17º álbum do grupo —hoje somente com Mustaine, vocalista e guitarrista, restante da formação original— poderia não ser um tchau e sim só mais um trabalho no extenso catálogo da banda. Que se encaixaria na fase menos inspirada do conjunto, a boa mas não memorável safra de discos lançados a partir do fim dos anos 1990.
“Megadeth” começa com a furiosa “Tipping Point”, certamente uma das mais fortes das onze faixas, e em menos de minuto as guitarras velocíssimas e a voz anasalada de Mustaine nos lembram por que esta banda foi e ainda é tão adorada.
A canção seguinte, “I Don’t Care”, mantém a barra lá em cima, com seis solos de guitarra, alguns a cargo de Teemu Mäntysaari, tocando guitarra pela primeira e última vez para o Megadeth neste disco. A música abusa do instrumento enquanto o faz soar divertido e adolescente, no bom sentido.
“Obey the Call” é outro destaque do disco, com seu ritmo mais lento e vocais quase falados, mas sem deixar de lado as guitarras abrasivas características do grupo.
O restante —com exceção da faixa bônus— até flui, mas vai em ponto morto. Neste bolo em que nada se sobressai, há músicas bem fracas como “Hey God” e “Another Bad Day”, esta com letras sofríveis de tão infantis. “Não faço ideia de onde estive/ Meu celular descarregou e o aluguel venceu/ Perdi meu emprego e perdi um dente”, canta Mustaine.
Quem gosta da banda vai achar o que curtir no disco, claro, mas seus 47 minutos estão muito distantes da altíssima qualidade artística de “Rust in Peace”, de 1990, e “Countdown to Extinction”, de 1992, dois clássicos da música pesada que refletem o auge criativo da banda. Ou mesmo de “Youthanasia”, de 1994, um excelente disco.
“Megadeth” talvez não chamasse atenção se não fosse o último trabalho de uma banda que, entre altos e baixos, passou por todas as fases da música pesada desde os anos 1980 com uma base de ouvintes estável, embora nunca gigantesca.
Os fãs do Brasil poderão ouvir faixas do disco ao vivo quando a banda tocar aqui, no que pode ser sua última vez no país, dia 2 de maio, em São Paulo, no Espaço Unimed.
Seria uma despedida classuda se o Megadeth entrasse para a história com os versos finais de “The Last Note”, que fecha o novo disco —”Meu testamento final, meu escárnio /Vim, governei /Agora desapareço”— mas Mustaine opotou por fustigar o passado com uma versão de “Ride the Ligthning”, incluída como música extra.
A faixa saiu no disco do Metallica de mesmo nome, em 1984, mas quando isso aconteceu Mustaine, que ajudou a compor a música, já havia sido enxotado da banda. Ele criaria em seguida o Megadeth, enquanto o Metallica começava a sua disparada rumo a se tornar o maior grupo de metal do mundo —uma dor de cotovelo que o líder do Megadeth nunca superou.