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Melania Trump tenta ser pop com documentário controverso – 31/01/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Foi com um chapéu preto estilo Zorro, de aba larga o suficiente para mascarar os olhos, que Melania Trump acompanhou o marido, Donald Trump, em sua posse presidencial há um ano. O sobretudo reto da mesma cor ajudou a compor o look misterioso e um tanto sombrio, que estampou na memória dos americanos e do mundo a imagem de uma primeira-dama inacessível, de poucos amigos.

Como uma heroína que tira a capa e revela sua identidade, porém, ela parece engajada na árdua tarefa de administrar um país no documentário “Melania”, que chegou aos cinemas do mundo nesta sexta-feira (30), após um evento na Bolsa de Valores de Nova York e uma luxuosa pré-estreia no agora Trump Kennedy Center, em Washington —no qual foram barrados e hostilizados profissionais de veículos como The New York Times, The Washington Post e Associated Press.

No sábado passado, dia 24, enquanto boa parte dos Estados Unidos ficou paralisada entre uma tempestade de neve histórica e protestos contra a morte de Alex Pretti em Minneapolis, nas mãos de agentes do ICE, o serviço de imigração americano, “Melania” foi motivo de uma festa particular na Casa Branca com convidados VIP —entre eles Tim Cook, CEO da Apple, e Mike Hopkins e Andy Jassy, executivos da Amazon, que banca a produção por meio da MGM Studios.

A relação com a Amazon, inclusive, tem sido motivo de polêmica. A empresa pagou US$ 40 milhões pelos direitos do filme à produtora de Melania e investiu outros US$ 35 milhões em marketing —somando algo aproximado a R$ 400 milhões, um orçamento bem maior do que se costuma gastar mesmo no caso de grandes documentários.

Em paralelo, por ora, a procura pelo filme tem sido baixíssima nesses primeiros dias em cartaz. A produção tem sete sessões em São Paulo, a maioria delas entre 14h e 16h, quando o movimento nos cinemas costuma ser menor.

Ainda não há dados preliminares sobre a bilheteria no país, mas nas consultas realizadas pela reportagem, as sessões tinham, no máximo, três assentos comprados até a publicação deste texto. Nos Estados Unidos, a abertura somou cerca de US$ 8 milhões em bilheteria, uma cifra baixa, mas que superou as expectativas do mercado.

“Alguns chamaram isso de documentário”, afirmou Melania no evento, segundo relato do The New York Times. “Não é. É uma experiência criativa que oferece perspectivas, insights e momentos.”

O filme promete mostrar os bastidores da Casa Branca nos 20 dias que antecederam o início do segundo mandato de Trump, em janeiro do ano passado.

A Melania do primeiro governo, que há nove anos receava a mudança da família para Washington e preferiu se manter reclusa, totalmente dedicada à criação do filho, Barron William, e com pouca participação pública, parece ter ficado para trás. “Lá vamos nós de novo”, ela diz para a câmera em certo momento, revelando olhos entusiasmados debaixo do chapéu de Zorro.

O que restou da primeira-dama de 2017 foi a admiração por Jacqueline Kennedy, que carregou o título por três curtos anos, até o assassinato do marido em 1963, e ainda assim se tornou uma das figuras mais carismáticas e influentes da política americana.

Depois de usar um vestido parecido com o de Jackie na primeira posse de Trump, Melania foi frequentemente comparada a ela pela imprensa americana —não pela emulação, mas, ironicamente, pela baixa popularidade frente ao apelo da mulher de John F. Kennedy.

Agora, porém, Melania quer ser pop. Com uma câmera espiã, cortes bruscos e sonoplastia dramática, seu filme parece imitar os moldes de um reality show, quase como um “Keeping Up with the Kardashians” adaptado para o cotidiano da família presidencial entre a Trump Tower, em Nova York, Mar-a-Lago, na Flórida, e, claro, a Casa Branca.

“É uma tentativa de mostrar que ela [Melania] tem independência, autonomia, e não é essa figura apagada, isolada, que não tem conexão com a política”, diz Lucas Amaral Batista Leite, especialista em história e política dos Estados Unidos e professor da Fundação Armando Alvares Penteado, a Faap.

O foco, porém, é a primeira-dama, que aparece assertiva, tomando decisões e até corrigindo o marido —numa das cenas, por exemplo, o presidente diz em uma reunião a portas fechadas que será um pacificador, e Melania prontamente completa sua frase: “Pacificador e unificador”.

São adjetivos que não combinam com as últimas ações do republicano, entre o bombardeio do Irã, no ano passado, a captura de Nicolás Maduro no início do mês e, agora, as ameaças de tomar a Groenlândia. Mas são títulos que Trump dá a si próprio, e mostrar cenas mais íntimas de seu cotidiano pode amaciar a hostilidade geralmente associada ao seu governo.

E se o bom comportamento começa em casa, especialistas apontam não só para as maneiras de Trump com os vizinhos, mas também sua postura expansiva em relação à mulher, no geral mais reservada.

“Trump é um presidente muito personalista. Melania está junto, mas em uma posição muito recuada e silenciosa. O objetivo nesse momento é posicionar ela enquanto mulher que tem agência e que não necessariamente concorda com tudo que Trump faz”, afirma Leite. “Para Trump também é positivo, no sentido de quebrar com a lógica da crítica de que Melania é supostamente submissa.”

A ideia de fazer um documentário foi da própria primeira-dama, assim que Trump venceu as eleições americanas, em novembro de 2024. O filme é produzido pela Muse Films, comandada por Melania, e dirigido por Brett Ratner, afastado de Hollywood desde que foi acusado de assédio sexual em 2017.

Em dezembro, uma foto vazada dos arquivos de Jeffrey Epstein —nos quais o próprio Trump é mencionado diversas vezes— mostrava o diretor abraçado com o recrutador de modelos francês Jean-Luc Brunel, sem camisa. Brunel foi encontrado morto na prisão, em Paris, em 2022. Ele cumpria pena por estupro de uma menor de idade. Em paralelo, novos arquivos do caso, divulgados nesta sexta, apontaram que Trump foi acusado de abusar sexualmente de uma adolescente décadas atrás.

Ratner também comanda “A Hora do Rush 4”, que trará de volta a dupla de policiais protagonizada por Jackie Chan e Chris Tucker. O filme está em produção e deve ser distribuído pela Paramount, após pedido do próprio presidente americano. A influência do republicano sobre o estúdio, também dono da CBS, um dos principais canais de notícias do país, é tema recorrente na imprensa americana.

Em meio às polêmicas, os envolvidos em “Melania” têm dificultado o acesso da imprensa ao filme e aos eventos que o cercam. Lá fora, veteranos na cobertura da Casa Branca foram deixados de fora da première. No Brasil, não houve sessão antecipada para jornalistas, e a estreia aconteceu numa sexta, em sincronia com o resto do mundo, e não numa quinta, como dita o calendário dos cinemas daqui.

Para Leite, ter uma produtora que atua seguindo as regras do mercado —ou quase— é uma forma mais sutil de controlar e espalhar conteúdo, sem correr o risco de acusações de censura. A Muse Films, por exemplo, é parceira da Amazon, que além da MGM é dona do Prime Video, e que distribuirá “Melania” após comprar o filme por US$ 40 milhões, cerca de R$ 210 milhões, maior preço que já pagou num documentário.

Os negócios entre a Amazon e a família Trump começaram em 2024, quando Jeff Bezos, bilionário dono da empresa de tecnologia, doou US$ 1 milhão, em torno de R$ 5 milhões, para o evento de posse do republicano, na tentativa de estreitar laços e deixar para trás as farpas trocadas durante o primeiro mandato do presidente.

A empreitada em direção ao cinema não é exclusiva da família Trump. Barack e Michelle Obama também criaram uma produtora de filmes e séries em 2018, a Higher Ground Productions, responsável por títulos como o distópico “O Mundo Depois de Nós”, estrelado por Julia Roberts, e “Rustin”, cinebiografia do conselheiro de Martin Luther King, Bayard Rustin, vivido por Colman Domingo.

Graças à produtora, Obama tem três prêmios Emmy e uma página lustrosa no IMDb, portal de referência na indústria audiovisual. Com iniciativas como esta, ou sua lista de melhores filmes, livros e músicas lançada anualmente, o ex-presidente conseguiu se manter firme no imaginário pop americano. Também é o caso de Michelle, que tinha bons índices de popularidade e já foi apontada em várias pesquisas como uma das mulheres americanas mais admiradas.

Trump, por outro lado, pode até ser cria do show business, ex-apresentador de O Aprendiz e ator em “Esqueceram de Mim 2”, mas pena para manter uma boa relação com Hollywood e o mundo do entretenimento em geral. Basta ligar a TV nos Estados Unidos para ver seu governo ser alvo constante de chacota em talk shows e programas como o humorístico “Saturday Night Live”.

“Há um engajamento simbólico e político, porque filmes como ‘Melania’ passam a ter um selo, como os dos Obamas. O público sabe que ali há uma certa curadoria na forma de olhar para o mundo e para a realidade”, diz Leite.

E nos Estados Unidos, onde o entretenimento é uma indústria poderosa, parece irresistível acompanhar os meandros da casa mais vigiada do país.

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