Países ao redor do mundo estão prestes a ver o precipício à medida que o fluxo de GNL (gás natural liquefeito) do golfo Pérsico chegará a um fim abrupto nos próximos 10 dias, quando um punhado de navios-tanque da região alcançará seus destinos finais.
O Qatar, que produz 20% do GNL do mundo, teve que interromper as exportações depois que o Irã bloqueou o estreito de Hormuz, na entrada do golfo, nos primeiros dias do conflito.
Desde então, o país sofreu danos enormes em sua gigantesca planta de GNL de Ras Laffan, que foi atacada por mísseis iranianos esta semana, fazendo os preços do gás na Ásia e na Europa dispararem.
Mas muitos navios transportadores de GNL que carregaram no Qatar e nos Emirados Árabes Unidos já estavam a caminho de seus destinos antes do início da guerra, de acordo com análise da corretora de navios independente Affinity, o que significa que alguns clientes só agora estão prestes a sentir a dor da perda de suprimento.
Países dependentes de importações para alimentar suas economias terão que pagar preços altíssimos para competir por suprimentos de GNL dos EUA e de outros lugares, mudar para outros combustíveis ou forçar residências e empresas a consumir menos.
Muitos países asiáticos pobres em petróleo e gás já impuseram medidas para evitar escassez, como foi o caso do Sri Lanka, que impôs semanas de trabalho de quatro dias.
Apenas uma carga de GNL do golfo Pérsico está programada para chegar à Ásia, que compra quase 90% da produção da região, de acordo com dados de rastreamento de navios. Seis carregamentos de GNL ainda devem chegar à Europa.
O Paquistão está em uma situação particularmente vulnerável. Quase 99% de suas importações de GNL vieram do Qatar no ano passado. Suas últimas cargas de Ras Laffan chegaram em 1° e 2 de março, logo no início da guerra.
Ambos os terminais de importação de GNL do país reduziram suas operações para um sexto dos níveis normais e terão parado completamente de despachar gás até o final do mês, de acordo com duas pessoas familiarizadas com a situação.
Um dos dois terminais, de propriedade da Pakistan GasPort, ficará sem GNL para processar nos próximos dias, afirmou o presidente e CEO, Iqbal Ahmed. “Depois disso, ficaremos secos…Não sabemos quando a próxima carga chegará”, declarou.
Antes do início dos ataques dos EUA e de Israel ao Irã, o Paquistão enfrentava um excesso de oferta de GNL e havia pedido à fornecedora QatarEnergy que redirecionasse 24 cargas que estavam programadas para chegar ao país este ano. Os paquistaneses também pediram à Eni, da Itália, que redirecionasse outras 11 cargas.
A compradora estatal Pakistan LNG pediu à Eni que enviasse algumas dessas cargas após o início da guerra, de acordo com uma pessoa familiarizada com o assunto, mas o pedido não teve sucesso. A Eni se recusou a comentar.
A Pakistan LNG também procurou comerciantes e fornecedores na Europa, Omã, EUA, Azerbaijão e África, mas todos ofereceram preços altos demais para o Paquistão aceitar, afirmou a pessoa com conhecimento das negociações.
A Pakistan LNG se recusou a comentar.
Comprar GNL no mercado spot é proibitivamente caro para o Paquistão. Os preços asiáticos de GNL no índice de referência Platts JKM dobraram desde o início da guerra, para cerca de US$ 23 por milhão de unidades térmicas britânicas (MMBtu). Os custos de frete aumentaram devido a taxas mais altas e viagens mais longas até fornecedores alternativos de GNL.
O Paquistão provavelmente recorrerá ao máximo ao óleo combustível, mais caro e mais poluente, para gerar energia se o conflito continuar. “[Mesmo assim] vejo que teremos um ano muito difícil seguido de dois ou três anos difíceis pela frente”, afirmou Ahmed, da GasPort.
Bangladesh também está vulnerável pelas mesmas razões, mas em menor grau porque recebe algum GNL de fora do golfo Pérsico. O país também teria dificuldades para pagar preços altíssimos para substituir o GNL que de outra forma teria recebido do golfo, e carece de combustíveis alternativos. O governo iniciou medidas de racionamento de gás, incluindo o fechamento de universidades.
Como um dos maiores compradores de GNL do Golfo, Taiwan está lidando com as consequências de sua tentativa de mudar do carvão para o gás, de queima mais limpa, enquanto elimina gradualmente a energia nuclear antes de uma transição completa para energias renováveis. O país agiu rapidamente para garantir cargas de substituição imediatamente após o início da guerra.
Em 10 de março, o Ministério de Assuntos Econômicos disse que 22 cargas do golfo Pérsico haviam sido garantidas, assegurando que não haveria preocupações com o suprimento até o final de abril. Mesmo assim, a demanda por eletricidade normalmente dispara no verão, levantando a possibilidade de “graves escassez de energia” se o estreito de Hormuz permanecer fechado, avaliou Kevin Li, do Centro Global de Energia do Atlantic Council.
China e Japão também provavelmente comprarão algumas cargas de GNL no mercado spot para compensar a escassez do golfo Pérsico, dizem comerciantes. Mas os negociadores e as concessionárias estão adotando uma abordagem de esperar para ver e planejam voltar ao carvão, afirmaram pessoas ouvidas pela reportagem.
As concessionárias japonesas estão segurando as compras de GNL por enquanto, confirmou outro comerciante. Embora o Japão seja o segundo maior importador de GNL do mundo, atrás da China, está menos exposto à interrupção dos fluxos do Oriente Médio, já que apenas 6% de seu suprimento passa por Hormuz.
A China obtém 30% de seu GNL do golfo Pérsico, mas tem alguma produção doméstica de gás e pode mudar para geração de energia a carvão se necessário.
O Japão também deve usar mais carvão e energia nuclear para gerar eletricidade. O país reiniciou parcialmente as operações na maior usina nuclear do mundo, no mês passado.
Até que mais navios sejam autorizados a passar pelo estreito de Hormuz, a entrega de suprimentos globais de GNL permanecerá escassa.
Na sexta-feira, o ministro de Energia do Qatar e CEO da QatarEnergy, Saad Al-Kaabi, afirmou que 17% da capacidade de produção de GNL foi comprometida pelos bombardeios em Ras Laffan e a empresa demorará de três a cinco anos para restabelecer totalmente a produção.