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Mercado do petróleo está em corrida por barris – 11/04/2026 – Economia

by Silas Câmara

Enquanto os investidores se concentravam no frágil cessar-fogo iraniano nesta semana, uma disputa desesperada por cargas se desenrolava no mercado de petróleo, com traders e refinarias vasculhando o mundo em busca de suprimentos disponíveis imediatamente.

No mar do Norte, o mais importante mercado físico de petróleo bruto do mundo, traders apresentaram 40 ofertas de compra de cargas esta semana, das quais apenas quatro foram atendidas por ofertas de venda. Cargas para entrega nas próximas semanas foram negociadas a preços sem precedentes, acima de US$ 140 (R$ 703) o barril. Em outros lugares, refinarias têm buscado suprimentos cada vez mais distantes, levando a uma série de negociações incomuns e recompensas disparadas para qualquer petróleo pronto para embarque imediato.

Traders afirmaram que os movimentos de pânico nos principais mercados físicos de petróleo do mundo demonstraram a escala do déficit de petróleo bruto que será sentido nas próximas semanas, à medida que a perda de suprimentos do Oriente Médio deixa uma lacuna crescente.

Os preços disparados sinalizam que algumas refinarias europeias provavelmente precisarão seguir o exemplo das asiáticas e reduzir a produção, disseram eles —uma medida que pode ajudar a equilibrar o mercado de petróleo bruto, mas aprofundaria a escassez de produtos essenciais como diesel e combustível de aviação.

“Simplesmente há uma escassez de petróleo bruto”, disse Neil Crosby, chefe de pesquisa da Sparta Commodities AS. “O Brent físico está um caos e subiu demais. Nesse ritmo, até as refinarias europeias terão que reduzir a utilização, talvez já no próximo mês.”

O frenesi no comércio físico de petróleo contrasta com o mercado futuro, onde o petróleo para entrega em junho caiu 13% esta semana, fechando em cerca de US$ 95 (R$ 477) o barril, em meio ao otimismo sobre o cessar-fogo.

Houve alguns sinais iniciais de aumento de atividade no estreito de Hormuz no fim de semana, com dois superpetroleiros chineses e um grego atravessando a via navegável, mas o tráfego ainda permanece bem abaixo dos níveis pré-guerra. E mesmo que as negociações deste fim de semana levem à retomada dos fluxos normais pelo estreito, é improvável que o alívio chegue a tempo de evitar uma crise. Leva semanas para o petróleo bruto do Golfo chegar às refinarias na Ásia e na Europa.

“As últimas cargas que transitaram pelo estreito de Hormuz antes do conflito estão agora chegando aos seus destinos. É aqui que os mercados de papel negociado encontram a realidade física, e a lacuna de 40 dias nos fluxos globais de energia fica verdadeiramente exposta”, disse Sultan al Jaber, CEO da Abu Dhabi National Oil Co., em uma publicação no LinkedIn na quinta-feira (9).

Essa lacuna pode ser vista no prêmio que as refinarias estão dispostas a pagar para garantir cargas de petróleo bruto disponíveis no curto prazo. Traders de algumas refinarias asiáticas, falando sob condição de anonimato, disseram que não estavam mais focados no preço e simplesmente buscavam garantir barris de petróleo onde pudessem para assegurar a segurança energética.

O Dated Brent —a referência mais importante no mercado físico de petróleo, usada para precificar milhões de barris por dia— atingiu um recorde de US$ 144 (R$ 723) o barril antes do cessar-fogo desta semana, superando suas máximas de 2008, mesmo com os futuros permanecendo bem abaixo de seus níveis recordes.

Na sexta-feira, havia caído para US$ 126 (R$ 632) o barril, ainda mais de US$ 30 (R$ 150) acima dos futuros do Brent para entrega em junho, enquanto traders incluindo Trafigura Group e Gunvor Group ofereciam mais de US$ 22 (R$ 110) o barril acima do Dated Brent por cargas de petróleo no mar do Norte para entrega no final de abril e início de maio. Suprimentos da Nigéria para carregamento no próximo mês foram oferecidos a até US$ 25 (R$ 125) por barril acima da referência, comparado a menos de US$ 3 (R$ 15) antes do início da guerra com o Irã.

Os países asiáticos, os mais dependentes do estreito de Hormuz para suprimentos de petróleo bruto, foram além de suas fontes tradicionais para vasculhar o mundo em busca de barris.

Refinarias japonesas lideraram uma investida para comprar petróleo dos EUA, que está exportando em níveis recordes. Uma onda de compras por refinarias chinesas elevou os embarques de petróleo de Vancouver, no Canadá, a um recorde histórico neste mês. E refinarias indianas têm aumentado as compras de petróleo da Venezuela. Na primeira semana de abril, navios-tanque carregaram quase 6 milhões de barris para o país do sul da Ásia, o dobro dos volumes vistos no mesmo período de março.

O foco está em barris disponíveis o mais rápido possível —e as refinarias estão dispostas a pagar mais pela rapidez. Refinarias japonesas fretaram navios menores que o habitual para suas compras de petróleo americano, para que possam atravessar o Canal do Panamá e chegar ao Japão mais rapidamente.

No sábado, o presidente Donald Trump publicou nas redes sociais sobre os “números massivos” de petroleiros se dirigindo aos EUA para carregar seu petróleo. O Midland WTI em Houston, conhecido como MEH, subiu para um prêmio de quase US$ 4 (R$ 20) o barril em relação à referência americana, aproximadamente quatro vezes seu nível antes da guerra. Traders disseram que o prêmio refletia o valor do tempo do trânsito de aproximadamente cinco dias até Houston.

A enorme diferença entre o petróleo bruto físico e os futuros é em parte um reflexo da mesma dinâmica, com barris comandando um enorme prêmio quanto mais cedo puderem ser entregues —uma condição de mercado conhecida como “backwardation”.

O nível extremo de prêmios para petróleo bruto de entrega imediata está colocando enorme pressão no mercado, disseram traders e analistas. Refinarias menores estão enfrentando dificuldades com necessidades de financiamento muito maiores devido aos preços mais altos, além do desafio de fazer hedge em um mercado onde o petróleo bruto físico que compram é muito mais caro do que os derivativos mais líquidos vinculados a ele.

“É uma enorme dor de cabeça de gestão de risco de preço —no papel, as margens são fantásticas, mas os fluxos de caixa reais de comprar uma carga e decidir refiná-la podem ser bem diferentes”, disse Roberto Ulivieri, consultor da Midhurst Downstream e ex-economista de refino da Saudi Aramco.

Algumas refinarias estão começando a se afastar do mercado como resultado —e a consequência será uma redução em sua produção, apertando ainda mais os mercados de derivados de petróleo.

Os preços do combustível de aviação e do diesel já dispararam para níveis recordes ou quase recordes, acima de US$ 200 (R$ 1.004) o barril. No mercado de gasolina dos EUA, politicamente crucial, os estoques encolheram para o menor nível em quase 16 anos, segundo a Administração de Informação de Energia.

E à medida que os compradores de petróleo caem nos EUA, analistas alertam que a escassez do mercado será sentida lá em seguida.

“Os mercados físicos não estão seguindo as pistas das redes sociais. Em vez disso, eles se fortaleceram implacavelmente à medida que as interrupções se espalharam da Ásia para a bacia do Atlântico”, disse Amrita Sen, cofundadora da consultoria Energy Aspects. “Se os futuros não alcançarem as realidades físicas, as exportações americanas podem facilmente permanecer elevadas, se a disponibilidade de navios permitir, a ponto de não sobrar petróleo bruto suficiente para as refinarias dos EUA.”

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