Debutei para os confetes e serpentinas antes de fazer um ano. Minha mãe, encantada com a sua primeira filha, resolveu fantasiá-la com o que havia de mais mulher: um collant justo, cor da pele, com uma folha de parreira de lantejoulas pregada sobre o ventre. Eu era um bebê narigudo, gorducho e careca; estava mais para Buda do que para Eva. Adão não morderia por mim uma maçã, mas, naquele dia, minha mãe coruja foi ao paraíso.
Seis anos depois, fui Pedrita. Eu, meus irmãos e alguns amigos formávamos Os Flintstones. Melhor do que chegar ao baile de tacape, foi se preparar para este dia. Parte da fantasia era usar ossos prendendo os cabelos. Para isso, assamos um frango, comemos, escolhemos as partes e depois ficamos, feito cientistas, observando nossas presilhas made in nature branquearem ao sol.
Minha mãe levava jeito para figurinista. E tinha prazer em criar as fantasias. Ia de Curitiba para São Paulo fazer compras para sua loja e trazia os acessórios que fizeram eu e minha prima ganharmos, nos anos seguintes, alguns concursos de clube.
Quando fiz dezoito, despi-me das fantasias. Enfiada num abadá, palmilhei o Carnaval de Salvador, experimentei o lança-perfume e a liberdade e fugi de mãos que pensavam que as mulheres eram bisnagas a serem indistintamente apertadas. Depois, resolvi pisar na avenida. Desfilei na Imperatriz Leopoldinense e sambei tanto, mas tanto, que cheguei ao final da Sapucaí com o bustiê na cintura.
Morando em São Paulo, assisti ao renascimento do carnaval de rua. Estive lá quando o Tarado ni Você ainda era um bloco pequeno e vi, nas janelas do centro, a Avenida São João ressuscitar ao som de Caetano, caminhando contra o vento e todo aquele cimento. Também dancei e celebrei ser mulher atrás da bateria totalmente feminina do Pagu.
Num primeiro encontro, eu não deveria perguntar aos meus pretendentes qual sua idade ou seus hobbies mas: és ou não do balacobaco? Me separei de um homem que não sabia o que fazer com uma serpentina. Me casei com outro que cobriu a careca com um cabelo de trancinhas e uma bandana, fazendo as vezes de Bel, do Chiclete, e com ele e com outros da nossa lá-lá-laia formamos o Bloquete, para o qual criamos um samba enredo que, graças ao Deus pagão, nossos filhos cantavam mas não entendiam.
Em 2017, bati meu recorde. De dia num bloco de rua e à noite e de madrugada no sambódromo de São Paulo, com uvas de plástico na cabeça, já que, naquele ano, a escola Nenê de Vila Matilde homenageava a imigração italiana e a minha tia. O desfile atrasou e deu início quando o dia já estava nascendo. Exigi tanto do meu corpo e traumatizei tanto meus pés que, uma semana depois, as unhas dos meus dedões simplesmente caíram.
Em 2020, finalmente viajamos para descansar durante o Carnaval, mas como o aniversário da minha filha caiu bem por esses dias, não resisti. Montei um bloco com seu nome, “Eva me leva”, que não tinha folha de parreira, mas tinha folha de papel: um estandarte improvisado, atrás do qual atravessamos a chácara perturbando galinhas, gansos e formigas.
Escrevo essa coluna ainda sem saber quem serei amanhã; marinheira, bagaceira ou odalisca, mas na certeza de que, de um jeito ou de outro, essa carcaça vai cair na folia.
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