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Milton Cunha faz defesa política do samba em Curitiba – 01/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Na terça-feira de temperatura amena na capital paranaense, parte do público arriscou um brilho na roupa e até adereços carnavalescos para assistir a aula-show “Samba: as escolas e suas narrativas”, liderada por Milton Cunha na Pedreira Paulo Leminski. O espetáculo foi criado especialmente para abrir a 34ª edição do Festival de Curitiba, uma das mostras teatrais mais relevantes do país.

“Solta a franga”, gritou o carnavalesco para animar homens, mulheres e crianças que lotaram um dos espaços do complexo cultural. Os curitibanos obedeceram: dançaram e cantaram alto as letras de sambas-enredos empolgantes escolhidos para o show.

Cunha recebeu convidados como Mestre Ciça, homenageado na Viradouro este ano, e Squel Jorgea Ferreira, porta-bandeira da Portela, em um espetáculo dividido entre relatos sobre a história das escolas de samba, apresentações dos artistas e manifestos em defesa do samba. Passistas, baianas, casal de mestre-sala e porta-bandeira, comissão de frente, bateria e destaques formaram o elenco de 45 pessoas.

“Tudo começa na negritude, no tambor. Os negros sofreram quatro séculos de terror, mas não se entregaram”, disse o comentarista da Globo no início da apresentação.

Como faz nas transmissões do Carnaval, ele abriu os microfones para os convidados falarem sobre suas trajetórias nas agremiações, com mais tempo do que na TV, o que deixou o show bastante discursivo. Sambistas jovens, veteranos, homens, mulheres, lgbts e a passista com nanismo Viviane de Assis pregaram o respeito ao Carnaval como manifestação cultural popular e local de trabalho para milhares de brasileiros.

“Tem dinheiro carimbado para orquestra sinfônica anualmente, por que não tem para as escolas de samba?”, questionou Cunha. Ele definiu o desfile das agremiações como a forma mais original de contar uma história e citou Getúlio Vargas como o primeiro a se apropriar da festa dos pretos para transformar em cultura oficial.

Em um depoimento muito aplaudido, Luara Bombom, rainha de bateria da Mocidade Unida do Santa Marta, da Série Prata do carnaval carioca, criticou as rainhas que não fazem parte das comunidades e lamentou a violência contra as mulheres ao afirmar que o seu corpo é instrumento de trabalho.

“É a minha forma de discursar em um mundo que mata tantas mulheres”, disse.

Lenda das passistas e vice-presidente da Portela, Nilce Fran pediu aplausos para as sambistas que têm mais de 40, 50 ou 60 anos. “Se eu for morrer de amor, que seja no samba”, cantou, citando trecho do samba campeão da Viradouro em 2026. “Se eu cheguei aqui, as meninas também podem”.

O espetáculo aborda a tradição, mas também abre espaço para as novidades carnavalescas, com a presença de Gustavo Siqueira, da Mocidade Alegre, escola campeã do Carnaval 2026 em São Paulo. O coreógrafo e passista é conhecido pela performance que quebra padrões de gênero, com o uso de sandálias de salto alto, por exemplo.

Sambas emblemáticos, como “Bum Bum Paticumbum Prugurundum”, da Império Serrano (1982), e atuais, como “Bembé”, o último da Beija-Flor, animaram o público, assim como defesa de mais apoio oficial para as escolas curitibanas. No final do espetáculo, integrantes da Deixa Falar, campeã do Carnaval deste ano, subiram ao palco para dançar ao lado dos artistas que vieram de outras cidades.

“O samba é democracia, aceita todos que sabem chegar. Tem que chegar no sapatinho e respeitar a estrutura”, afirmou Cunha.

A noite terminou com os sambistas no meio do público, dançando e posando para fotos em uma noite em que Curitiba não resistiu à folia. Essa imagem de proximidade entre artistas e público inspirou Fabíula Passini, uma das diretoras do festival, durante uma visita à quadra do Salgueiro, no Rio. Acompanhada do salgueirense Pedro Neves, integrante do setor de comunicação da mostra, ela começou a planejar a abertura em ritmo de samba, com Milton Cunha à frente.

O Festival de Curitiba é realizado até o dia 12 de abril na capital paranaense.

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