Dada a profusão de informações e o espaço limitado de publicação, a imprensa seleciona quais temas e acontecimentos receberão destaque. Assim, os veículos influenciam a agenda pública e a percepção de relevância de assuntos políticos e sociais. Não se trata apenas de quais temas, mas de como eles serão apresentados.
Essa atuação, conhecida como teoria do agendamento (agenda-setting), contribui para que a sociedade identifique questões coletivas importantes, escrutine políticas, governos e instituições e exerça pressão por mudanças.
Há efeitos nefastos, porém. A frequência da cobertura e do tipo de enfoque pode superdimensionar problemas, gerar sensação de crise generalizada, pânico moral e respostas desproporcionais, além de reduzir complexidades ao enfatizar atributos mais dramáticos e apelativos.
No fenômeno “satanic panic”, ocorrido nos EUA nos anos 1970 e no início dos anos 1990, a imprensa teve papel relevante na crença de que haveria redes organizadas de culto satânico envolvidas em crimes como abuso infantil e assassinatos ritualísticos. A associação de jogos de videogame com violência juvenil (como tiroteios em escolas), entre os anos 1990 e 2000, é outro exemplo.
Agora, no Brasil, a cobertura midiática sobre misoginia, redes sociais e feminicídio aparenta seguir esse caminho temerário.
Veículos expandiram o conceito de misoginia para falas sexistas como “você está de TPM?” ou interromper uma mulher num debate. Vê-se também a tentativa de atestar causalidade direta entre grupos red pill na internet e feminicídios, sem respaldo robusto para isso. Pesquisas internacionais mostram que comunidades red pill de fato propagam discursos misóginos, mas ainda não se estabeleceu vínculo de causalidade direta com violência —por curiosidade, até hoje não se constatou esse tipo de relação no caso dos videogames.
A segurança física e mental das mulheres é assunto sério demais para ser tratado com descaso pelas evidências e por meio de sensacionalismo midiático. O jornalismo precisa ficar mais atento àquilo que põe em sua agenda.
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