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Morre Afrika Bambaataa, figura central do hip-hop, aos 67 – 09/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Afrika Bambaataa, rapper e dj americano, morreu nesta quinta-feira (9), aos 67 anos. Conhecido como uma das figuras centrais do hip-hop e pioneiro do rap, o artista foi fundamental para formatar o som do gênero com a música “Planet Rock”, de 1982.

As informações foram dadas pelo TMZ. Segundo o site de notícias, o artista morreu por complicações de um câncer.

Bambaata nasceu em 1957, em Nova York, com o nome Lance Taylor. Mais tarde, adotou Bambaataa como nome artístico.

O músico começou a ganhar popularidade por volta dos anos 1970. No Bronx, bairro de nova iorquino em que nasceu, ele organizava festas que tinham o hip-hop como som central. Os eventos se transformaram em grandes festas de rua e ganharam visibilidade nacional.

Apareceu com seu primeiro single, “Zulu Nation Throwdown”, em 1980. Nele, o músico fazia referência à Universal Zulu Nation, um coletivo artístico criado pelo artista, que reunia, na época, rappers, grafiteiros e integrantes da cena do hip-hop.

A grande revolução feita por Bambaataa aconteceu em 1982, com o lançamento da música “Planet Rock”. Um dos maiores sucessos do hip-hop de todos os tempos, a faixa determinou as bases da sonoridade do gênero nos anos seguintes e depois deu origem a outros ritmos —como o electro, o Miami bass e até o funk carioca.

Lançada por Bambaataa em parceria com The Soulsonic Force e sob produção de Arthur Baker, “Planet Rock” emprestava sua estética do grupo alemão Kraftwerk, pioneiro da música eletrônica. A faixa se ancora em sonoridades retiradas —elas na verdade foram recriadas em vez de sampleadas— das músicas “Trans-Europe Express” e “Numbers”, dos alemães.

Especialmente a primeira delas teve um impacto definitivo para Bambaataa. Ele viu nas batidas eletrônicas do Kraftwerk uma conexão com o funk americano —mesmo aquele mais futurista, representado principalmente por George Clinton— da época, e a partir daí tirou a influência para criar um funk eletrônico, que ele chamava de electro-funk na época.

Entre as referências de “música do futuro” de Bambaataa e Baker, estavam também a banda japonesa Yellow Magic Orchestra, de Ryuichi Sakamoto, e a obra do inglês Gary Numan. “Entendi o trem [do título da música do Kraftwerk] e a viagem como uma metáfora para transportar o som por todo o universo, assim como sua influência e poder. Sempre que sentia a vibração da banda, tudo o que conseguia pensar era que aquilo era algo extraordinário. Essa era a música para o futuro e para viagens espaciais”, ele disse em entrevista ao site Electronic Beats.

Com Arthur Baker, Bambaataa recriou as harmonias do quarteto alemão usando sintetizadores, e as batidas, com uma máquina Roland TR-808, instrumento fundamental na arquitetura da sonoridade do rap e da música pop até hoje —é a mesmo citada no famoso disco “808s & Heartbreak”, que Kanye West lançou em 2008.

Da aspereza europeia do Kraftwerk, a dupla de rapper e produtor criou uma sonoridade eletrônica dançante de batidas graves, com rimas, sons de explosão e melodias épicas, abrindo caminho para o desenvolvimento de uma música eletrônica negra a partir do hip-hop.

Se o impacto de Bambaata para a música eletrônica global é incalculável, dentro do hip-hop ele é um dos grandes pioneiros, com uma importância comparável às dos DJs e lendas Kool Herc e Grandmaster Flash. Eles transformaram os toca-discos em instrumentos musicais, com técnicas como os scratches e os breakbeats, possibilitando que as batidas e trechos dos discos de vinil durassem pelo tempo que quisessem. Bambaataa veio depois com a virada eletrônica.

Outro gênero que teve influência substancial de “Planet Rock” foi o funk brasileiro, gestado na mesma década de 1980.

A batida de “Planet Rock” foi copiada pelos produtores de Miami bass, gênero que serviu como base rítmica da gênese do funk —depois desenvolvido em tamborzão, beat-boxes e outras batidas. A música mais marcante que os DJs usaram para estabelecer o som do funk carioca foi “Beatappella”, presente no EP “808 Volt Mix” —uma referência ao mesmo instrumento usado por Bambaataa—, do DJ Battery Brain, lançado em 1988.

Essa faixa, por conter apenas as batidas, sem intervenções melódicas ou vozes gravadas, acabou sendo mais usada por DJs e MCs nos bailes do Rio de Janeiro. Pela ausência de outros elementos, ela poderia ser usada com total liberdade pelos cantores, que no começo improvisavam suas rimas por cima do batidão —é a época dos “melôs”.

Em 2010, em uma de suas várias passagens pelo Brasil como na Virada Cultural de São Paulo em 2008, , o artista disse que conseguia ver sua música refletida no funk.

O rap brasileiro também não escapou das influências de Bambaataa. Marcelo D2, em 2003, nomeou seu album “A Procura da Batida Perfeita” em homenagem ao artista, em um disco que unia o samba carioca com batidas do hip-hop nova iorquino.

Em 2016, Fernanda Abreu lançou “Amor Geral”, álbum que contava com uma parceria de Abreu e Afrika Bambaataa no single “Tambor”. O astro chegou a aparecer no clipe, gravado no Rio, em uma música que mistura os sons do berimbau e do tamborzão.

O artista também colaborou com a produção de canções de outros tantos grandes nomes da música, como U2, UB40 e James Brown. Bambaataa colaborou ainda com John Lydon, do grupo Sex Pistols, em “World Destruction,” que foi performada ontem (8), no show de Lyndon com a banda Public Image Ltd, em São Paulo.

O artista fez parte da idealização do Museu Universal do Hip-Hop, projeto que está no papel desde 2012 e programado para abrir suas portas no Bronx, no segundo semestre deste ano.

Apesar de ser um ícone no hip hop, o artista passou por uma série de controvérisas. Bambaataa enfrentou inúmeras acusações de molestar meninos menores de idade.

A acusação, vinda inicialmente de um único homem, dizia que o artista teria abusado dele e o traficdo quando ele tinha 12 anos. Após a denúncia, outros casos similares apareceram.

Simuktaneamente, a Universal Zulu Nation se desassociou da imagem do artista em uma tentaiva de remover “todos os acusados e aqueles acusados de acobertar as atuais alegações de abuso sexual infantil”.

O músico negou todas as acusações, mas no ano passado perdeu o processo civil por abuso sexual e tráfico de crianças após não comparecer ao tribunal. Bambaataa renunciou ao cargo de líder da associação e foi obrigado a pagar uma indenização à vítima do caso.

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