Não é sempre que um alienígena anda pelas planícies de Tarsila do Amaral. Nas obras de Rodolpho Parigi, porém, tudo é possível. Ao menos é o que o artista diz sobre sua nova individual, que abre nesta terça na galeria Nara Roesler. Reconhecido por pintar formas que parecem se liquefazer, ele sobrepõe referências de diversos períodos da história da arte, seres de naturezas variadas e diferentes técnicas visuais.
Nesse mesmo espécime “tropical gótico”, conforme descreve, o xenomorfo criado por Ridley Scott se depara com “O Impossível” de Maria Martins, surrealista que distorceu a biologia humana em suas esculturas, e divide o espaço com estátuas de Victor Brecheret, cujos contornos volumosos desafiaram o realismo clássico.
Volume, aliás, é outra marca registrada de Parigi, ainda que a estratégia levante uma contradição —apesar da alta definição dos traços tridimensionais, é difícil distinguir os corpos, os objetos e as abstrações em suas telas.
“Sempre tratei as vertentes artísticas de maneira parecida. Sempre tratei tudo de maneira parecida, sem qualquer tipo de hierarquia, com todo meu carinho, tesão e intensidade”, afirma o artista, que se inspira em cânones das artes plásticas, sapatos que guarda no armário ou mesmo imagens digitais.
“Minhas pinturas surgem do desejo erótico de transfigurar as coisas. É uma atitude que sempre foi queer e a não binariedade é essencial para o meu trabalho. Gosto que as pessoas se perguntem o que é o que não é.”
A transfiguração é evidente em “Corpo”, em que Parigi retrata entranhas, membros, células do sistema nervoso e superfícies metálicas, que tensionam os limites entre o homem e a máquina. Braços aparentam sair de um emaranhado de fibras humanas, e nem tudo é literal —sementes de romã se transformam em glóbulos vermelhos, e caules de flores e plantas substituem nervos e vasos sanguíneos.
Sobra espaço até para o látex reluzente que Fancy Violence costuma vestir, personagem que o artista interpretou em fotografias e performances pelo mundo. As luvas da drag queen, inclusive, ganham um quadro próprio, em que braços sólidos se refugiam debaixo das dobras de tecido preto.
Noutra tela, redonda e que simula um espelho, as luvas da vez são de um vermelho vibrante e tateiam seus reflexos. À exceção de um globo ocular que flutua por ali e vigia a cena, a falta de um rosto através do vidro causa estranhamento.
Outra obra, entretanto, busca dar conta de uma face inteira. Nela, uma mão segura uma cara prateada, que se liquefaz enquanto fuma um cigarro. O artista compara a tela horizontal a outro retrato, vertical. Dessa vez, pinta seu antigo nariz adunco (que deixou de existir após uma cirurgia plástica) sobre uma escultura greco-romana e insere um olho que parece ter sido extraído de um caderno de medicina.
“Embora as duas telas tenham organizações diferentes, ambas são retratos. O objetivo é justamente tensionar os limites das artes, como se estivéssemos abrindo um corpo, revirando as suas partes e explorando tudo o que cabe ali dentro.”
Em outro quadro, com cores vibrantes que sugerem o calor do núcleo terrestre, silhuetas humanas se confundem com criaturas quadrúpedes, e espécies vegetais imitam pescoços e outras estruturas anatômicas.
Entre manchas de sangue, colunas vertebrais, rostos de bonecas e pênis dourados, mesmo as texturas aumentam a diversidade desses organismos. Se alguns desenhos se destacam pela tridimensionalidade, outros trazem uma aspereza plana. São pedaços submetidos a lixas, que embaralham fundos e superfícies e criam um tipo de carapuça.
A relação é mais clara no quadro que reúne a ossada de um crânio e a estrutura elástica, gosmenta e indefinida de um molusco. As fibras de seu interior formam círculos e espirais, entre infinitas descrições. Apesar da rigidez das pinceladas, esses elementos, explica Parigi, vêm da intuição, como se as obras lhe dissessem o que fazer.
“O exercício em si é surrealista. Não mapeio o resultado final das pinturas e não uso bases que devo alcançar. Eu vou tirando, vou pondo. Ficou bom, eu deixo. Não ficou, tiro. A obra se torna o próprio processo.”
Antes de voltar para Nova York, onde vive, o artista ainda conclui outra missão —um retrato de Ney Matogrosso, que será exposto no Solar dos Abacaxis, no Rio, baseado no álbum de estreia da banda Secos & Molhados. A ideia é que a tela, redonda, se torne uma bandeja com a cabeça do cantor.
“Ney é uma figura que sempre explodiu as barreiras entre o certo e o errado. Agora, estou prestes a voltar para um lugar cheio de proibições, e me vejo como alguém nada proibido. Gosto de tensionar sistemas.”