Como dizia o poeta, a festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu. O pós —seja o fim de uma festa, de um ritual ou de uma celebração coletiva— informa os trabalhos de Juliana Frontin, artista visual que traz para as suas obras ecos de um passado imediato dominado pelo êxtase.
Na sua primeira exposição solo, em cartaz até o final de abril na galeria Yehudi Hollander-Pappi, celeiro de artistas experimentais em São Paulo, Frontin quer situar o espectador no depois. “É um vazio. Ele vem depois dessa euforia, dessa coisa de preencher com pessoas, com som, com drogas, com a noite, com tudo”, diz Frontin.
Sendo assim, o que se vê, ouve e sente na mostra de caráter instalativo, pensada especificamente para a casa que abriga a galeria, joga o visitante num estado de torpor, aquele borrão de quando o pico da adrenalina passou, mas o descanso ainda está distante.
Este clima aparece numa grande fotografia —uma imagem retirada de um vídeo— que registra o final de uma edição da festa ODD, balada de música eletrônica na qual Frontin tocou por anos como DJ. A imagem borrada mostra um grupo de pessoas, sob uma luz azul, como que prestes a irem embora.
Enquanto observa a foto, o espectador ouve de longe um bate-estaca eletrônico, meio abafado. O som sai de um alto-falante pendurado na sala ao lado. A música é uma composição da própria Frontin, feita com máquinas e sintetizadores manipulados por ela. Uma luz azul tranquila banha este ambiente, e no chão colchões de espuma convidam a deitar e relaxar, como no after-hours de uma festa.
“O after”, afirma a artista, “é quando as pessoas não querem que a festa termine”, um estado de suspensão também sugerido pelas batidas abafadas da música eletrônica. O ambiente leva o visitante a uma espécie de transe.
Nos últimos dois anos, a artista carioca radicada em São Paulo se tornou mais conhecida no circuito, com uma produção que procura dar forma a conceitos etéreos. Suas obras participaram de exposições coletivas na galeria Luisa Strina e na Casa Bola. Nesta última, em cartaz agora, Frontin participa com dois quadros de resina, um material branco que amarela com o passar do tempo.
Suas resinas não são pinturas, mas o formato delas sugere que estão prontas para serem penduradas na parede. Há quatro na exposição na galeria, com frases como “music rushes towards its own death”, a música se apressa em direção ao seu próprio fim, e “this is ritual space”, este é um espaço ritual, retiradas do livro “Sinister Resonance: The Mediumship of the Listener”, do músico e pensador britânico David Troop.
Pela primeira vez, a artista mostra um vídeo. Em dois monitores, evoca o estado de cansaço do fim de festa, ao condenar seus personagens a estados repetitivos —numa das televisões, pessoas andam para lá e para cá continuamente, como a procurar algo que não perderam. Na outra tela, elas aparecem catatônicas, paradas enquanto miram o vazio.
Numa exposição em que as obras dialogam entre si e se debruçam sobre o mesmo conceito, talvez a peça mais forte seja a primeira, “Endgame”. Na entrada, a artista enterrou no chão de concreto um case de instrumento musical —ou de aparelhagem de DJ—, dentro do qual colocou uma cópia de “Fim de Partida”, peça de Samuel Beckett.
Quer dizer, o término da celebração está dado desde o seu começo. No texto sobre a exposição, o historiador alemão Thomas Kaufmann argumenta que o case, assim como um caixão, “possibilita o transporte e o deslocamento dos instrumentos que produzem um enterro, uma festa, uma rave”.
“Quando fechado”, prossegue Kaufmann, “retém seu conteúdo; nunca se sabe plenamente o que carrega. É o núcleo carregado de uma energia latente; algo que será usado, mas que permanece guardado, invisível. O início dessa festa, dessa euforia coletiva, já está marcado por seu fim.”