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Mulheres, professoras e a feminização do magistério – 11/03/2026 – Políticas e Justiça

by Silas Câmara

Desde a Educação Infantil, por muito tempo chamada de “maternal”, o cuidado e a educação das crianças são exercidos majoritariamente por mulheres. Nos anos iniciais do Ensino Fundamental, a figura da “tia” reforça a ideia de continuidade entre família e escola. Apenas nas etapas finais a presença masculina se amplia, sobretudo em disciplinas específicas; no ensino superior e nos cargos de gestão educacional, os homens tornam-se ainda mais presentes. Essa distribuição desigual não é neutra: afeta trajetórias profissionais, padrões de remuneração e reconhecimento social, além de moldar percepções de autoridade e competência dentro e fora da escola.

A associação entre docência e maternidade é resultado de um processo histórico que consolidou a maioria feminina no magistério e moldou expectativas sobre o trabalho das mulheres. A chamada “feminização do magistério” tornou-se mais evidente no século 19, quando homens migraram para ocupações mais valorizadas social e economicamente, dentro e fora da área da educação. As vagas docentes, especialmente nos primeiros anos do ensino formal, passaram a ser ocupadas por mulheres brancas, de classe média e com escolarização básica. Para elas, a docência representou uma das poucas possibilidades de atuação pública e relativa autonomia econômica.

Esse processo, observado no Brasil e em outras partes do mundo, apoiou-se em concepções religiosas e científicas que vinculavam identidade feminina à maternidade, ao cuidado e à formação moral das crianças. Em sociedades patriarcais, ensinar passou a ser visto como extensão das funções de esposa e mãe. Consolidou-se, assim, a ideia de que lecionar, sobretudo para crianças pequenas, seria uma aptidão “natural” das mulheres. Esses estereótipos persistem e ajudam a explicar uma dinâmica duradoura: sendo majoritariamente feminina, a docência segue submetida à desvalorização simbólica e material. Quando o cuidado é entendido como vocação, o trabalho docente tende a ser tratado como missão, e não como profissão que exige formação, condições adequadas e valorização salarial.

A sobreposição entre maternidade e docência também aparece no âmbito doméstico. Ainda hoje, recai principalmente sobre as mães o acompanhamento escolar dos filhos, a interlocução com a escola e a organização da rotina de estudos. Em momentos de crise, como na pandemia de COVID-19, essa sobrecarga torna-se ainda mais evidente, revelando desigualdades persistentes entre homens e mulheres.

No mês em que celebramos as mulheres, é fundamental reconhecer sua centralidade histórica na educação e, ao mesmo tempo, questionar as estruturas que naturalizam desigualdades. A feminização do magistério exige uma análise que articule sexo, classe e raça, pois as inequidades se acumulam e se manifestam de forma distinta. A desvalorização das professoras está ligada tanto à fragilidade de políticas de carreira, remuneração e condições de trabalho quanto à permanência da ideia de “vocação feminina”. Valorizar o trabalho docente e reconhecer o papel central das mães na escolarização são passos essenciais para uma educação mais equitativa e uma sociedade que distribua responsabilidades e oportunidades de forma mais justa.

O editor, Michael França, pede para que cada participante do espaço Políticas e Justiça da Folha de S. Paulo sugira uma música aos leitores. Nesse texto, a escolhida por Marcella Winter foi “Woman in Chains”, de Tears for Fears e Oleta Adams.


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