Todas as sextas-feiras, dias em que esta coluna é publicada, sei que uma das primeiras mensagens que encontrarei ao olhar o celular pela manhã será a do meu amigo Renato Nalini comentando o texto. Nalini acorda cedo —muito mais cedo do que eu— e suas mensagens chegam como quem deixa flores na porta de casa. Há nelas uma delicadeza rara: sua fala é terna, suas palavras são sábias e sua capacidade de manter um diálogo profundo, atento e engraçado com mulheres sempre me chamou a atenção.
Começo com essas palavras tanto pelo prazer de surpreendê-lo com minhas próprias flores deixadas à sua porta nesta manhã quanto pelo que penso que figuras como ele podem ensinar aos homens jovens.
Nalini está na Academia Paulista de Letras desde 2003 e foi em sua gestão na presidência que tomei posse. Durante sua trajetória, foi juiz de carreira, chegou à presidência do Tribunal de Justiça de São Paulo. Aposentado do tribunal, assumiu chefias de pastas no governo do estado e do município. Podemos dizer, com franqueza, que é um homem acostumado ao poder. Ainda assim, sua biografia lhe veste com leveza: sem necessidade de ostentar autoridade, generoso, escuta com atenção e cuidado.
Foi sob sua recomendação que assisti nesta semana ao documentário “Louis Theroux: Por Dentro da Machosfera”. O filme, em primeira pessoa, acompanha o encontro do jornalista britânico com expoentes do movimento red pill, como ficou conhecida a mobilização de homens jovens em torno de conteúdos que exaltam a masculinidade enquanto desprezam mulheres.
Um deles afirma ensinar garotos a mandar em mulheres, ganhar dinheiro, “viver fora do sistema” e não ter patrão. A narrativa é acompanhada por imagens de carros de luxo, relógios caros e mansões. Contudo, trata-se em grande parte de uma encenação.
A estética da riqueza funciona como maquiagem para uma indústria de apostas, criptomoedas e jogos de azar online que financia esses influenciadores. São iniciativas frequentemente fraudulentas que lucram com o prejuízo econômico de jovens vidrados na tela do celular.
Nesse universo, a frustração sexual de jovens também é capturada e manipulada. Influenciadores convivem com a contradição de divulgar e empresariar mulheres que produzem conteúdo pornográfico ao mesmo tempo em que as desprezam, retratando-as como burras, sujas e representantes da categoria de mulheres. O documentário também revela o teor racista e homofóbico de muitas das mensagens disseminadas por essas figuras.
Entre os termos mais repetidos no documentário aparece a “matrix”. Como lembra a filósofa Marilena Chauí, em “Iniciação à Filosofia”, a palavra deriva do latim “mater”, que significa mãe. Designa originalmente o útero, o órgão onde a vida se desenvolve. No filme homônimo, o termo reúne diversos sentidos, como a incubadora universal onde os humanos vivem sem perceber e a matriz operacional dos códigos e redes de fluxos de informação.
É do filme —um clássico do cinema— que surgiu a metáfora da pílula vermelha, a red pill. No longa, Morpheus, líder da revolução, oferece duas pílulas a Neo, o salvador. A azul preserva a ilusão confortável do mundo das máquinas; a vermelha expõe a engrenagem distópica de controle do mundo. Neo escolhe a pílula vermelha para renascer e enxergar a estrutura que o aprisiona.
Assim, Neo redesenha o destino de Zion, a última cidade restante. Contudo, o movimento da “machosfera” se apropriou do significado da pílula vermelha para defender a dominação masculina, convertendo um convite ao despertar político em mais uma justificativa para práticas misóginas.
É evidente que, nesse enquadro, as personagens mulheres do filme são esquecidas. A Oráculo, por exemplo, é uma mulher negra. Já Trinity, a comandante da tripulação da nave de Morpheus, opera como um arquétipo da mulher que guarda a passagem entre portais. É ela quem convida Neo à resistência contra as máquinas.
O grande conflito do primeiro filme envolve a traição de Cypher. Apaixonado por Trinity e ressentido por vê-la se apaixonar por Neo, ele decide trair a resistência. Mais do que isso, deseja deliberadamente voltar à Matrix. Preferia viver numa ilusão confortável —rico, importante e cercado de mulheres sexualmente disponíveis— a enfrentar a realidade devastada fora das máquinas. Cypher queria a “blue pill”.
As semelhanças entre o personagem e o universo da “machosfera” chamam a atenção. Faltou apenas abrir um canal no YouTube chamado “Patrix”, onde passaria o dia vendendo bet e reclamando que tudo aquilo que não teve foi culpa da Trinity.
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