Lá vamos nós de novo. Em evento realizado na última terça-feira (24), a Nasa apresentou uma reformulação radical de seu programa tripulado. Sai de cena a futura estação orbital lunar Gateway e entra uma base lunar na superfície. E, como se não fosse o bastante, a agência também quer uma nave não tripulada com propulsão nuclear a Marte em 2028.
Tudo muito empolgante, ainda mais às vésperas do primeiro voo além da órbita terrestre feito por humanos desde a Apollo 17, em 1972, com a missão Artemis 2, que tem previsão de lançamento em 1º de abril, se não chover. Mas seria crível?
Confesso que a primeira coisa que pensei quando li sobre o plano apresentado por Jared Isaacman foi em outro administrador bem-intencionado da Nasa, Thomas Paine, que assumiu a agência no auge da primeira corrida espacial, logo após o sucesso da Apollo 11, em 1969. A Nasa então estava embriagada pelo sucesso de Neil e Buzz no Mar da Tranquilidade, e Paine trazia um plano ousado para o futuro pós-Apollo.
Ele previa a criação de uma estação espacial com 12 tripulantes em 1975, uma base lunar em 1976, um ônibus espacial reutilizável em 1977 e uma missão tripulada a Marte nos anos 1980. O então presidente Richard Nixon não achou que fosse um plano, mas sim um cardápio, e escolheu apenas o ônibus espacial, que ficou pronto em 1981.
Isaacman sem dúvida incorpora a atitude desafiadora e inspiradora da gestão da Nasa da era Apollo, o que é positivo, mas é difícil imaginar que ela não vá rapidamente colidir com a sóbria realidade orçamentária de um programa espacial tripulado que há décadas vive mais de mudanças de planos que de realizações. Cada nova rota ocasiona falsos inícios, projetos desperdiçados e dinheiro queimado. Será diferente agora?
O novo plano da base lunar tem três fases, e a primeira começa já, para dar a impressão de que tem pé e cabeça. Vai de agora até 2029 e prevê principalmente atividade robótica, mas, ainda assim, muita atividade robótica. Serão até 25 missões, com 21 pousos, incrementando o atual programa de carretos privados até a Lua e depositando até quatro toneladas de cargas úteis na superfície. Nessa meiuca estariam a Artemis 4 e 5, tripuladas.
Entre 2029 e 2032, ocorreria a fase dois, com a instalação de reatores nucleares, rovers tripulados e sistemas de habitação semipermanentes. A terceira fase, começando em 2032, promoveria a presença contínua na Lua, com rotação de tripulação, à moda do que se faz hoje na Estação Espacial Internacional.
Tudo isso contrasta com o fato de que a Nasa não tem hoje um veículo de pouso lunar em que possa confiar para realizar sua primeira alunissagem tripulada do século 21. Blue Origin e SpaceX têm contratos para fornecê-los, mas não está claro que possam entregá-los nos prazos requeridos.
E aí entra a questão de que país chegará primeiro à Lua no século 21. Começa a parecer que será a China. Seria esse plano uma forma de os americanos fazerem “melhor”, já que dificilmente farão “primeiro”? Haverá financiamento para tudo isso? O que dirá a próxima gestão? O novo programa agora pede US$ 10 bilhões por fase, o que não parece irrealista, mas a tradição é os custos escalarem ao longo do tempo. Difícil hoje dizer que não terminará como o plano de Paine em 1969.
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