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Nelson Felix tem exposição com obras inéditas em São Paulo – 20/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Se uma linha reta for traçada a partir da galeria Almeida & Dale da Vila Madalena, em São Paulo, e outra sair do Museu de Arte Contemporânea da USP, na mesma cidade, elas se encontrariam na praça Horácio Sabino, no bairro de Pinheiros, quase de forma perpendicular .

Nesta praça, o artista Nelson Felix cravou uma ponteira com um verso do poeta catalão Joan Brossa —seu ato, em setembro do ano passado, marcou o encontro das linhas imaginárias e também o início de um trabalho que inclui duas exposições de sua obra. A primeira abre neste sábado, na galeria Almeida & Dale, e a segunda acontece a partir do final de maio, no museu sediado no prédio de Oscar Niemeyer.

Para o artista de 72 anos, que frequentemente organiza seus trabalhos a partir de coordenadas geográficas ou de acordo com a posição do sol, a linha imaginária também determinou a colocação das esculturas da mostra na galeria. Os pedestais de mármore que sustentam em equilíbrio instável cadeiras e bancos de bronze e ferro não estão paralelos às paredes da galeria, mas sim na diagonal.

Intitulada “Pedra de Rumo”, a série de esculturas inéditas que também dá nome à mostra começa do lado de fora da galeria e atravessa os dois espaços expositivos internos e a área externa, guiando o visitante por um jardim de esculturas e estranhezas. Entre as peças, alguns dos blocos têm galhos espinhosos encravados em suas estruturas, e outros vêm com cactus e plantas diversas colocadas em potes.

Pedra de rumo é um termo usado para descrever a orientação de uma linha divisória de um terreno ou o alinhamento em um levantamento topográfico. O artista lembra também das religiões africanas, como a umbanda, na qual a pedra de rumo direciona as energias dentro do terreiro e representa um norte simbólico, ligado ao equilíbrio e ao caminho certo.

“Acho bonitas essas duas relações. Têm a ver com direção, destino. Tinha muito a ver com o pensamento do trabalho”, afirma Felix, numa visita à exposição dias antes da abertura. Ele fala baixo e dá respostas longas, misturando assuntos em idas e vindas até conectar os pontos do que disse para concluir a ideia.

Desenhista e escultor, ele é também um dos principais artistas conceituas em atividade, com uma obra que depende fortemente do discurso. Não que seus trabalhos não possam ser apreciados individualmente —o artista ressalta que o espectador é bem-vindo para fruir os trabalhos exatamente pelo que eles são—, mas afirma que a compreensão de sua poética se amplia se o público fizer o esforço mental de conectar as obras entre si e a sua produção como um todo.

Felix considera a sua arte um ato contínuo, em que os trabalhos se vinculam uns aos outros. “É uma coisa que tem em música. Vamos pegar uma sinfonia —ela tem duas, três árias. Se você escuta uma ária, é um bloco de música. Agora, se você junta as três árias, há uma complexidade e uma beleza nisso. Isso envolve também uma participação ativa de quem vê.”

Música é uma fonte constante de inspiração para o artista. Em outra série de trabalhos apresentados agora pela primeira vez, ele desenhou sobre folhas de chumbo, escrevendo em algumas delas palavras e versos tirados da canção “O Mar”, de Dorival Caymmi, um de seus grandes ícones, que conhece desde criança, quando seu pai ouvia os discos do baiano na vitrola. É uma caligrafia infantil, não perfeita, devido à resistência imposta pelo material.

Chamada de “Caymmi”, a série é um estudo deste metal pesado —além de escrever sobre ele, Felix retorce o chumbo e o faz parecer um lenço, dobra as extremidades das folhas ou cola nas chapas retalhos de linho para contrastar com a dureza do material. “Acho que todo mundo sente uma certa relação entre o chumbo e a voz de Caymmi, entre a secura dele e a docilidade. Porque é muito doce, muito simples”, diz o artista.

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