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Nossa, como você cresceu – 21/02/2026 – Antonio Prata

by Silas Câmara

“Nossa, como você cresceu!” é das frases que mais irritam uma criança. Pelo menos a criança que eu fui —e as com que passei o Carnaval. Eram sete. (E todas tinham, aliás, crescido muito.) “Nossa, como você cresceu!” foi o que eu disse pra Lia, filha da Mari e do João, assim que ela desceu do carro. Ela me olhou com uma cara que, se fosse uma HQ, teria um balão com “Dãããã”.

A frase é ridícula, eu sei, por sua banalidade. O que o adulto esperava? Que a criança encolhesse? Criasse duas cabeças? Três braços? Crianças crescem. Óbvio. Prometo não repetir a fala a nenhuma delas. Não posso evitar, porém, que a surpresa brote toda vez que as encontro. As vi nascer. Poucos feriados atrás estavam engatinhando, bebês, de fraldas e chupetas. A nossa grande preocupação era que pusessem pedras ou peças de Lego na boca, agora estão fazendo coreografias das Guerreiras do K-Pop e a preocupação é que (tenham ou) postem nas redes sociais.

Escrever crônica é lidar com o banal. Lidar com o banal é difícil, pois o banal é, desculpem, banal. A gente não acorda, escova os dentes e invade a Polônia. A gente acorda, escova os dentes e entra num zoom. A gente acorda, escova os dentes e vai no cartório. Falar sobre o banal, porém, é necessário, pois o banal não é, desculpem, banal. A vida se mostra através do banal. Você não entende que seu casamento subiu no telhado porque seu amor te diz que está 19% menos apaixonado hoje do que anteontem, mas porque no começo da relação vocês ficavam meia hora discutindo que filme ver na Netflix, agora ele/a aperta o botão no meio do controle remoto e que se dane. Ou a pessoa chega em casa, joga as chaves na mesa, ou bate a porta do carro de um jeito e você entende: já era.

Escrever crônica é descascar essa mexerica e tirar os fiapinhos, desviando de um clichê a cada parágrafo. “As crianças estão crescendo”, por exemplo. Anteontem comiam pedras e peças de Lego, hoje usam curvex. Eu vejo a Lia sair do carro. Eu lembro da Lia bebê, com seus cachinhos castanhos e chupeta na boca. Lá vai mais um clichê: “a vida passa rápido”.

“Lutar com palavras/ é a luta mais vã./ Entanto lutamos/ mal rompe a manhã./ São muitas, eu pouco./ Algumas, tão fortes/ como o javali./ Não me julgo louco./ Se o fosse, teria/ poder de encantá-las./ Mas lúcido e frio,/ apareço e tento/ apanhar algumas/ para meu sustento/ num dia de vida./ Deixam-se enlaçar,/ tontas à carícia/ e súbito fogem/ e não há ameaça/ e nem há sevícia/ que as traga de novo/ ao centro da praça.”

Chegando aonde eu queria chegar. Nesse feriado, eu corri com a minha filha. Eu e ela, numa estrada de terra no interior de São Paulo. Eu explicando pra ela como respirar, a atenção nas pedras do chão, como ficar na beirada quando vem carro, não se preocupar com os cachorros que só latem e depois se afastam. Aquele bebê que outro dia estava no meu colo, de mamadeira, agora está do meu lado, correndo cinco quilômetros em meia hora e me fazendo comer poeira. Nossa, como a vida pode ser boa –termino aqui, com este último clichê.


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