No ano de 1986, o cometa Halley passou perto da Terra após 76 anos e gerou um misto de euforia e incerteza em quem queria vê-lo nos céus do Brasil. A atmosfera política do país naquele ano provocava algo semelhante. Após mais de 20 anos de ditadura militar, a redemocratização brasileira animava, mas não sem o desconforto e a insegurança de uma anistia que arrastaria os crimes do regime para os novos tempos.
É neste cenário histórico, e sob este clima dúbio, que se desenrola o enredo do primeiro romance de Maria Brant, intitulado “O Ano do Cometa” (Fósforo), que chega às livrarias na próxima semana.
“Eu tinha dez anos, e o cometa foi bem marcante para mim. Além de um marcador temporal, ele também tem uma função simbólica no livro”, explica a autora. “Existia uma grande expectativa a respeito do cometa e, no fim, foi bem decepcionante porque mal se viu qualquer coisa no céu. Ao mesmo tempo, a retomada da nossa democracia trouxe muitas esperanças, mas anos depois as pessoas elegeram alguém a favor da ditadura.”
Foi em 2018 que Brant juntou a decepção com o produto democrático brasileiro de então –a eleição de Jair Bolsonaro à Presidência da República– com um conto que havia escrito sobre Íris, uma das três protagonistas do romance. “Fiz esta relação e segui esse fio”, conta.
Com ele, Brant costura as histórias de três meninas de uma mesma família às voltas com a morte trágica de um tio querido, irmão gêmeo de outro que naquele ano regressa ao Brasil depois de anos no exterior com a mulher e os dois filhos nascidos fora do país.
As personagens observam os acontecimentos do país e do mundo naquele ano de 1986 a partir de seus olhares de criança e de adolescente. Cada uma tem o seu ponto de vista, que se complementam de alguma forma. Para além do cometa, este foi o ano da Copa do Mundo em que Zico errou um pênalti que derrotou o Brasil, do acidente nuclear na usina de Chernobyl, na então União Soviética, e da explosão do ônibus espacial Challenger, e seus astronautas, nos EUA.
Para retomar esta visão infanto-juvenil, a autora contou com a convivência com os dois filhos, que a relembravam do pensamento mágico e das perguntas inusitadas típicas da infância e adolescência.
Essa mesma perspectiva incide sobre os efeitos da memória e das mudanças daquele cenário político brasileiro em seus pais e parentes marcados por traumas e por uma tragédia sobre os quais ninguém fala abertamente.
Esse “imperativo do silêncio”, familiar à autora, dá ares de mistério e densidade a uma trama que passeia pelo cotidiano das primas Íris, Rosa e Violeta e pelas características típicas deste universo, como a imaginação, o medo, a vergonha e o despertar do desejo.
Brant traz para o texto elementos da sua formação em amplo espectro: formal, familiar e afetiva. É mestre em direitos humanos e doutora em relações internacionais. Pegou gosto por astronomia depois que sua mãe, a astróloga Barbara Abramo, a ensinou a observar o céu. E teve parentes e pessoas próximas a sua família presas e torturadas durante a ditadura militar.
Seu avô, o jornalista Cláudio Abramo, por exemplo, foi preso em 1975, depois liberado. Seu pai, Vinicius Caldeira Brant, foi preso algumas vezes e muito torturado, e morreu quando a autora tinha 23 anos. “Ele não falava sobre isso”, lembra ela. “Eu perguntava, e ele não falava. Isso parece ser bem comum. Conheço várias pessoas que também tiveram pais que sofreram tortura e outras coisas do tipo e que não falam a respeito.”
Quando a presidente Dilma Rousseff abriu os arquivos da ditadura, em 2005, a autora quis quebrar aquele silêncio. “Eu li o depoimento que ele deu para a Auditoria Militar sobre a tortura que sofreu por nove dias seguidos. Uma coisa terrível.”
Ainda que não seja um romance autobiográfico, Brant admite que “O Ano do Cometa” bebe deste universo em que ela cresceu. “São várias camadas de silêncio. Tem o fato de os nossos pais não falarem exatamente o que aconteceu. Pode ser por trauma, não querer reviver aquilo”, especula.
“Mas tem também o medo porque envolver alguém neste assunto poderia ter consequências muito sérias. Pessoas poderiam ser presas, torturadas ou até mortas. E isso é muito presente na minha vida e na de algumas pessoas da minha geração”, relata ela, hoje aos 49 anos. “A gente viveu a ditadura como criança, no meio de tudo isso.”
Para Brant, há ainda outro silenciamento mais amplo, do país, que ela chama de institucional. “Teve a anistia, e não se fala mais nisso.”
Um debate público menos raso sobre o tema tem sido retomado na cauda do sucesso de filmes premiados internacionalmente como “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, e “Agente Secreto”, de Kleber Mendonça Filho. E reverbera numa produção literária que ganha ainda mais consistência com a chegada de “O Ano do Cometa”.
Brant cita o próprio livro do jornalista Marcelo Rubens Paiva que deu origem ao filme vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2025, mas também as obras lançadas recentemente por Julia Codo (“Caderno de Ossos”, Companhia das Letras) e Chico Mattoso (“O Hipopótamo”, Todavia).
“Países que deram outro tratamento a suas ditaduras, como a Argentina, o Chile e o Uruguai, há uma produção muito maior sobre o tema”, aponta Brant. “No Brasil, se a gente não teve esse debate pela via institucional, que seja pela arte, porque ela dá esperança.”