Você não deve saber o que é um gasogênio, mas essa geringonça já foi a única alternativa dos motoristas brasileiros, quando a importação de petróleo ficou realmente travada. Durante a Segunda Guerra Mundial, com o racionamento de combustível no Brasil, esses equipamentos eram adaptados aos carros, transformando carvão e lenha em gás que alimentava os motores dos veículos.
Agora, com a escalada da guerra no Irã e o travamento do estreito de Hormuz, o mundo começa a fantasiar novo racionamento. O preço do petróleo cru disparou novamente, saindo dos US$ 70 dólares o barril, no fim de fevereiro, para os surpreendentes US$ 98, em 20 de março.
Pela profusão de carros elétricos nas ruas, imagino que não seremos obrigados a recorrer novamente ao gasogênio, mas fomos forçados a reconhecer como o diesel continua o manda-chuva da logística brasileira.
Caminhoneiros ameaçaram greve contra a escalada dos preços e o governo federal correu para editar uma medida provisória autorizando o gasto extra de R$ 10 bilhões para subvencionar o preço do diesel.
A pressão sobre os combustíveis e sobre os gastos do governo, dois grandes geradores de inflação, levou a um fenômeno no mínimo estranho: enquanto o Banco Central cortava os juros (pela primeira vez, sob a batuta de Gabriel Galípolo), o mercado apostava que o país viverá sob juros mais altos do que se esperava no curto, no médio e no longo prazo.
É confuso, mas dá para explicar. O que o Copom (Comitê de Política Monetária) define é a Selic, a taxa básica de juros, que, na prática, estabelece o quanto o governo vai pagar por dinheiro no curtíssimo prazo, estabelecendo a base para o custo do crédito e rendimento de aplicações em toda a cadeia financeira.
O valor da Selic, nos atuais 14,75% ao ano, é usado para calcular a taxa DI, de depósitos interbancários, que é o quanto um banco cobra de outro. E o mercado faz suas apostas em relação a quanto acha que elas estarão no futuro, nas negociações dos chamados contratos de DI futuro, fazendo as chamadas curvas de juros.
Eles são negociados diariamente entre investidores e refletem quanto o mercado acredita que os juros praticados deverão estar em datas determinadas, levando em conta inflação esperada, risco fiscal, cenário internacional e credibilidade da política econômica.
Desde a reunião do Copom, que cortou a Selic, o contrato de DI para janeiro de 2027, o curto prazo, saiu da casa de 13,2% que ocupava no fim de fevereiro para algo próximo de 14,2% ao ano. No vértice intermediário da curva, o DI para 2030 avançou de aproximadamente 12,8% para perto de 14%. E mesmo na ponta longa, onde pesa mais a questão estrutural do que uma alta pontual de preços, o movimento foi na mesma direção, com o DI para 2036 subindo de cerca de 13,3% para algo ao redor de 14%.
Ano eleitoral costuma vir acompanhado de maior incerteza e, muitas vezes, de tentativas de suavizar preços e pressões no curto prazo. Intervenções como baratear o diesel facilitam o diálogo com setores sensíveis, mas cobram seu custo nos anos seguintes.
Ainda que a mudança da matriz energética mundial esteja em andamento, o caos gerado com os ataques ao Irã mostra que ainda vivemos numa economia altamente dependente do petróleo. Ter um país com juros baixos parece agora tão distante quanto carros a gasogênio.
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