A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.
Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.
O que talvez ainda não tenhamos formulado com suficiente clareza é que essa lógica transbordou das redes e passou a organizar também a política institucional. O Parlamento —que deveria operar como espaço de deliberação e negociação— passou a mimetizar o padrão de interação das plataformas digitais. O governo também.
A dinâmica é reconhecível. Em vez de discutir políticas públicas, intervenções governamentais ou projetos de lei em termos de consequências e prioridades, o debate se organiza como uma competição moral. O adversário, evidentemente, não é alguém de quem se discorda, mas alguém que encarna o erro ou a perversidade.
Os episódios recentes no Congresso são ilustrativos. A criminalização da misoginia, o debate em torno da representação de Erika Hilton, a tipificação do vicaricídio, a acusação feita por dois senadores contra o relator da CPI do INSS de estupro de vulnerável e tentativa de suborno —todos esses casos compartilham uma mesma estrutura. Não são apenas controvérsias políticas, mas um conjunto de “performances de virtude”.
A pesquisa recente tem dado nome a esse fenômeno: ostentação moral (“moral grandstanding”). Trata-se do uso da retórica moral como instrumento de afirmação pública da própria virtude. E ele opera em duas direções complementares. De um lado, a busca de prestígio: apresentar-se como mais justo, mais sensível, mais comprometido do que os demais, conquistando admiração dentro do próprio campo. De outro, a busca de dominância: constranger, desqualificar e expor o adversário como moralmente inferior, afirmando superioridade por meio da humilhação pública.
Essas duas lógicas estruturam o comportamento parlamentar contemporâneo. Discursos em plenários ou comissões, declarações a jornalistas e os inúmeros posts em redes sociais que se seguem não são apenas argumentos. São performances voltadas à obtenção de reconhecimento. Intervenções não visam apenas convencer —visam também marcar posição em uma hierarquia moral visível. Acompanhe uma semana de seu deputado ou senador favorito e veja como esse jogo se joga.
Em ambientes digitais, expressões de indignação moral geram visibilidade, aprovação e engajamento. E, logo, à performance parlamentar juntam-se ativistas, jornalismo profissional, influenciadores e outras figuras públicas, todos ávidos por participar da grande competição de moralismo nacional. À medida que o bolo do engajamento cresce —na mídia digital, eletrônica e impressa—, cria-se um incentivo poderoso: vale a pena moralizar, acusar, dramatizar. Ao longo do tempo, forma-se um padrão de aprendizado coletivo em que a moralização tende a aumentar.
Por um lado, os benefícios individuais do exibicionismo moral são claros e crescentes: mais atenção, reconhecimento e capital político. Cada autor de um projeto de lei —desses apresentados como resposta a uma “injustiça que clama aos céus” ou como restauração da decência diante de uma “situação de calamidade ética”— torna-se o campeão moral de sua tribo. Por outro lado, os custos dessa dinâmica são difusos e coletivos: aumento da polarização, deterioração do debate e redução da capacidade de deliberação. O ator individual ganha ao participar do jogo; o sistema perde.
O Parlamento, mimetizando as redes, torna-se um palco privilegiado dessa dinâmica. Sessões se convertem em performances, discursos são moldados para circulação digital e conflitos se intensificam porque é deles que depende a atenção pública. Quanto mais gente chocada, furiosa ou brigando, melhor para o exibicionismo moral.
Não se trata de injetar mais ética no sistema, e sim de maximizar o lucro pessoal do parlamentar no mercado de indignação. A prioridade não são discussões substantivas em nome do interesse público, mas prevalecer na luta de pavões, vistosamente empenhados em exibir superioridade moral.
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