A loucura da semana foi o tal “planeta descoberto pela Nasa que pode estar em uma zona habitável pelos seres humanos”. Você deve ter lido alguma coisa que se assemelhe a isso em algum lugar nos últimos dias. Muita hora nessa calma, tudo mais ou menos errado. Esse conceito de “zona habitável pelos seres humanos” nem existe, para começar.
Admito uma certa gastura de ver essas notas mirabolantes, publicadas por veículos de todos os tamanhos, em que o descaso viaja mais rápido que a luz. É nessas que as descobertas potencialmente interessantes, por serem mal apresentadas, vão minando não só a credibilidade da ciência como o fascínio de quem lê.
Vamos aos pingos nos is. Um grupo de astrônomos encabeçado por Alexander Venner, da Universidade do Sul de Queensland, na Austrália, publicou no Astrophysical Journal Letters um artigo sobre um possível novo exoplaneta nos dados da missão K2, segunda fase da missão do telescópio espacial Kepler, da Nasa.
Por que “possível”? Porque o Kepler registra trânsitos planetários, que ocorrem quando um planeta passa à frente de sua estrela com relação ao telescópio, causando uma pequena redução de brilho. Só que o padrão ouro para confirmar sua existência é identificar três trânsitos consecutivos, com periodicidade que obedece às leis keplerianas (daí a inspiração para o nome do satélite).
Ocorre que o sinal observado na estrela HD 137010, em 2017, é solitário, ou seja, foi visto uma só vez –o que é normal para a missão K2, uma vez que ela ficava só uns três meses apontada para a mesma região do céu. Se o planeta levasse mais que isso para fazer um segundo trânsito, o telescópio perderia o evento.
Também vale lembrar que sinais aparentes de trânsitos podem ser falsos positivos. Podem ser, por exemplo, causadas por manchas estelares. Daí a necessidade de observação repetida.
Venner e seus colegas têm motivos para acreditar que, ao menos nesse caso, era mesmo um planeta. Isso tem a ver com a qualidade da observação e com o tempo de duração do suposto trânsito. Mas, como ainda falta confirmação, o HD 137010 b segue sendo apenas um candidato.
O que um “talvez planeta” pode ter de tão interessante? Aqui, três coisas. A primeira: ele orbita uma estrela do tipo K, apenas um pouco menor que o Sol. A segunda: o sinal parece indicar um mundo com porte quase exatamente igual ao da Terra (6% maior, com margem de erro de 5% a 6%). E a terceira tem a ver com o tempo do trânsito. Extrapolando a partir dele a velocidade do planeta e –atenção agora– supondo que a órbita seja quase circular, como a da Terra, ele teria um período orbital de 355 dias. O nosso é de 365.
Importante destacar que essa é uma estimativa rudimentar, com uma margem de erro que pode chegar a 200 dias. E nem se fale se a órbita não for tão circular assim. Com essas incertezas, falar em zona habitável (a faixa em torno de uma estrela em que a incidência de radiação seria suficiente para manter água em estado líquido na superfície; nada a ver com seres humanos) é no mínimo prematuro.
O legal disso tudo: a possibilidade está aí. Podemos reapontar nossos melhores telescópios para essa estrela no momento aproximado em que esperamos um novo trânsito e confirmar a existência do planeta, bem como, a partir do período mais precisamente definido, saber mais sobre sua órbita e se ele de fato está na zona habitável. Ciência se constrói passo a passo. Aguardemos os próximos.
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