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Você já deve ter ouvido que o Brasil está na moda. Pessoas do mundo inteiro ouvem nossas músicas, vestem nossas cores, planejam viagens para nossas terras e, mais do que nunca, assistem a filmes brasileiros que contam um pouco da nossa história. O sucesso de “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” nas principais premiações internacionais do cinema parece nos tornar impossíveis de ignorar neste momento.
Esse fascínio, porém, não se estende com a mesma força à literatura nacional, e a reportagem do editor Walter Porto investiga as razões desse persistente descaso.
À primeira vista, o problema parece ser crônico. O desinteresse pela literatura em língua portuguesa é histórico. Entre 1886 e 1994, apenas 164 livros brasileiros foram traduzidos para o inglês. O número pode soar expressivo —três livros a cada dois anos—, mas encolhe quando lembramos dos nomes que o sustentam.
São gigantes como Jorge Amado, Clarice Lispector e Paulo Coelho. Mesmo esses nomes, no entanto, raramente ocupam as vitrines fora do Brasil.
“A literatura brasileira ainda não alcançou o reconhecimento que merece. Poderíamos fazer mais se tivéssemos orçamento e equipe maior, mas em termos do que fazemos, tem sido bastante satisfatório”, afirma o embaixador Marco Antonio Nakata, diretor do Instituto Guimarães Rosa.
Resta, então, uma pergunta incômoda: de que adianta desejarmos nossas obras na lista de leitura dos gringos se nós mesmos seguimos afastados da literatura produzida no Brasil?
Acabou de Chegar
“Contos Completos” (trad. Bruno Cobalchini Mattos, Mundaréu, R$ 78, 224 págs.) confirma a distância do autor José Donoso daquele que ficou conhecido como o quarteto fantástico do boom latino-americano: Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e Gabriel García Márquez. Ao contrário deles, Donoso seguiu longe do realismo mágico e usa a forma culta de escrita “como experimentação”, segundo o crítico Alvaro Costa e Silva.
“Mumbo Jumbo” (trad. João Vitor Schmidt, Zain, R$ 79,90, 320 págs.) é comumente apontado como a obra-prima do americano Ishmael Reed e, apesar de ter sido publicado na década de 1970, só chega ao Brasil agora. No romance, uma epidemia de dança se espalha pelas comunidades negras dos EUA. “É um livro que mistura ambientação pulp, cosmogonia africana, teologia, teorias da conspiração e uma escrita anárquica temperada de erudição e humor”, escreve o crítico Gabriel Trigueiro.
“Rei” (Planeta, R$ 69, 272 págs.) é o livro em que o jornalista Paulo Vinicius Coelho, o PVC, percorre toda a trajetória de Pelé e conta como o menino Dico se tornou o maior nome da história do futebol. Além de destacar os principais episódios da carreira do atleta, PVC fala também do Edson pai e marido. Trata-se de uma biografia, embora o autor recuse esse título: “Li as biografias feitas por Ruy Castro e Fernando Morais, por isso tenho um certo pudor [de me referir ao livro dessa maneira]”, ele diz em entrevista a Naief Haddad.
E mais
“Rivalidade Ardente”, romance de Rachel Reid, teve sua tiragem quintuplicada pela Globo Livros ainda na pré-venda no Brasil. O movimento foi impulsionado pelo sucesso viral da série canadense que adapta o livro. “Heated Rivalry”, como é chamado por lá, conta o relacionamento secreto de dois jogadores de hóquei. Como aponta o Painel das Letras, antes mesmo do lançamento, o livro chegou ao topo dos mais vendidos da Amazon.
Com o Nobel de Han Kang e a ficção de cura se estabilizando como gênero, a literatura sul-coreana tem ganhado cada vez mais espaço nas livrarias brasileiras. O blog K-cultura revela que ao menos 18 títulos assinados por autores sul-coreanos já foram anunciados para 2026. Entre eles estão as best-sellers Min Jin Lee e Heena Baek e o livro ilustrado oficial do filme animado “Guerreiras do K-pop”.
Além dos Livros
A socióloga italiana Leopoldina Fortunati, contemporânea e colaboradora da célebre filósofa feminista Silvia Federici, expandiu a tese de que o trabalho no contexto familiar também é produtivo. Segundo ela, o capitalismo aprofundou as desigualdades entre homens e mulheres, sendo o real inimigo delas. “O operário teria uma relação direta com o capital por meio do trabalho assalariado, enquanto a mulher é vista como ‘uma força natural’ dentro de casa”, escreve a repórter Angela Boldrini.
Em um mundo atravessado por produtividade tóxica e geopolítica caótica, a vida de freira parece um refúgio. Foi isso o que pensaram as pesquisadoras Carmen Urbita e Ana Garriga. Mas, ao mergulharem em estudos da vida monástica, elas descobriram mulheres que enfrentaram superiores incompetentes, amores à distância e dificuldades financeiras. “Ler sobre essas freiras e perceber que elas estavam tendo experiências semelhantes nos ajudou muito a processar nossas próprias lutas”, conta Garriga em entrevista a Luana Lisboa.
A partir da ideia de que “todo texto é inesgotável”, a colunista Juliana de Albuquerque volta aos escritos de Simone de Beauvoir e Hannah Arendt sobre a tensão entre política e moral. A partir de exemplos diferentes, ambas as filósofas mostram que julgar tem uma dimensão política importante: não basta condenar alguém, é preciso entender o porquê dessa condenação em termos éticos e morais.