O mercado aguarda a divulgação de resultados da Oncoclínicas, marcada para segunda-feira (30). Nas últimas duas semanas, a companhia assinou termos de compromisso com o grupo Porto e o Fleury para a criação de uma nova empresa, porém ainda existe receio de que sua dívida seja maior do que os R$ 4 bilhões anunciados no balanço do 3° trimestre de 2025.
Hoje, a alavancagem financeira total da companhia é de 4,2 vezes o Ebtida (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). Nessa conta estão a dívida líquida financeira em conjunto com aquisições a pagar.
De acordo com a Oncoclínicas, o montante da dívida também está impactado pela provisão de R$ 217 milhões em CDBs mantidos junto ao Banco Master e que tiveram destino incerto com a liquidação do banco de Daniel Vorcaro no ano passado.
Neste momento, Porto e Fleury realizam um processo de auditoria para averiguar as condições da Oncoclínicas. Segundo pessoas a par do assunto, o potencial risco Master é menor nas negociações, porém o tamanho real da dívida ainda é uma incógnita.
Os contratos de compromisso estabelecem que o negócio só avança se o endividamento e os passivos da Oncoclínicas não ultrapassarem R$ 2,5 bilhões —isso já incluindo eventuais parcelamentos de M&A (fusões), tributários, com fornecedores e outros instrumentos de dívida financeira.
No final do ano passado, a companhia realizou um aumento de capital de R$ 1,4 bilhão e converteu parte das dívida em ações, reduzindo o montante da dívida para R$ 2,8 bilhões. Existe a expectativa de que no próximo balanço a Oncoclínicas anuncie uma redução de parte desse montante e chegue ao limite estabelecido por Porto e Fleury.
Segundo fontes do setor, é comum que em processos de fusão ou de criação de uma nova estrutura empresarial, apareçam dívidas que estavam fora do radar e se configurem como um “risco não mapeado”. Se esses novos valores não comprometerem a viabilidade da empresa, os termos do acordo são refeitos e tudo se resolve.
A negociação entre as três empresas ainda é inicial. A proposta é criar uma companhia onde Fleury e Porto serão minoritárias, com cerca de 30%, e investirão R$ 500 milhões através de uma holding.
Por outro lado, a rede de hospitais de oncologia pretende levantar até R$ 1 bilhão com a venda de participações na nova empresa e realizar a emissão de debêntures que podem ser convertidas em ações. Parte da atual dívida operacional será transferida para a futura empresa, porém será necessária a aprovação de credores.
Em relatório disponibilizado nesta semana, o BTG avaliou que a Oncoclínicas tem uma parte de ativos que não serão transferidos para a nova estrutura, incluindo operações no Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Goiânia e na Arábia Saudita. Ao todo, esses ativos valem cerca de R$ 300 milhões e são insuficientes para queimar a parte da dívida que não será transferida.
As ações da companhia já não apresentavam boa performance desde 2024, mas despencaram após o desenrolar dos escândalos no Banco Master. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro detinha 15% da rede e parte desses papéis estão hoje sob controle do BRB (Banco de Brasília). Ainda não há definição sobre o que o banco vai fazer com os 8,6% de participação herdada das mãos de Vorcaro e o conflito é discutido na Justiça.
Do ponto de vista estratégico, a Oncoclínicas é avaliada positivamente no mercado, uma vez que os serviços de oncologia geram o maior lucro ambulatorial no setor de saúde.
Hoje, a companhia presta cerca de 92% dos serviços de oncologia da Porto, um dos maiores grupos de seguros e planos de saúde do país. O movimento também tende a posicionar o Fleury na liderança do segmento de cuidados ambulatoriais, que congrega serviços de diagnósticos e oncologia.
Aliado a isso, a futura união é vista como uma possibilidade de diversificação, o que tende a reduzir eventuais riscos de preço no setor de diagnósticos.
Em relatório recente, o Itaú BBA afirmou que a união é “estrategicamente consistente” com a ambição do Fleury em expandir para segmentos de maior complexidade e crescimento acelerado. A companhia já atua no segmento através de uma joint venture com o Bradesco Saúde e a Beneficência Portuguesa.
Para o BTG Pactual, a entrada do Fleury no negócio também resolverá a falta de expertise da Porto com a parte operacional do negócio. Por outro lado, se o acordo avançar, o banco avalia que a transação poderá mudar a percepção do mercado sobre o Fleury, que hoje opera com um modelo de negócios relativamente estável, caracterizado por distribuição de dividendos e fluxo de caixa livre —justamente o oposto da Oncoclínicas, que está bastante alavancada.
Outro problema levantado no mercado está relacionado à transferência dos acordos de credenciamento da Oncoclínicas com operadoras de planos de saúde e os contratos de exclusividade assinados previamente, que podem ser mais difíceis de remanejar para a futura operação.
LINK PRESENTE: Gostou deste texto? Assinante pode liberar sete acessos gratuitos de qualquer link por dia. Basta clicar no F azul abaixo.