Não era a primeira vez que Pavel Talankin, organizador de eventos numa escola russa, filmava estudantes. Com uma Sony A6300, câmera portátil e de fácil operação, ele costumava registrar gincanas, atividades de culinária e outras descontrações. Naquele dia, porém, gravava um exercício militar com armas, envolvendo crianças.
Revoltado, ele firmou uma parceria online com o cineasta David Borenstein, e o aparelho amador virou disfarce para Talankin, que buscava denunciar a propaganda do governo russo. “Imagens são uma forma de controle, e o excesso delas, hoje, tem sido menos usado para convencimento e mais para nos desgastar”, diz Borenstein, que criou um roteiro para ordenar os materiais de “Um Zé Ninguém Contra Putin”, que chega ao Brasil pela Filmelier+ no próximo dia 26, e disputa o Oscar junto de Talankin.
“Por um lado, a onipresença das imagens virou parte da mídia e instrumento de ideologias modernas. Por outro, essa onipresença pode ser subvertida”, afirma ainda. “Sou um pouco cético em relação à tecnologia, mas a noção sobre filmagens e câmeras se dispersou e parece que todos podem ser parte de uma história e ter algum poder em mãos.”
O documentário não é o único da lista atual da Academia que utilizou câmeras amadoras. No subúrbio americano, tensões num bairro de classe média são retratadas por câmeras corporais da polícia. Reunidas pela documentarista Geeta Gandbhir, as gravações de “A Vizinha Perfeita” recapitulam a execução de uma mãe negra, baleada por uma mulher branca que implicava com crianças da região e foi presa em 2023.
Produzido pela Netflix, o filme é um dos favoritos ao troféu de melhor documentário e pode ser encontrado na busca por “true crime“. Baseado em crimes reais, o termo designa títulos de não-ficção e vem ampliando sua popularidade via podcasts, séries e longas voltados ao cotidiano de responsáveis por atos terríveis.
Atualmente, o termo também tem gerado polêmica por ser aplicado a produções que ficcionalizam a história de criminosos reais, como Jeffrey Dahmer e os irmãos Erik e Lyle Menendez. Para Luis Felipe Labaki, pesquisador e curador do festival documental É Tudo Verdade, “A Vizinha Perfeita“ mobiliza o rótulo “true crime” como estratégia de atração para um público fascinado pelo gênero, mas, ao mesmo tempo, desmonta os recursos narrativos que costumam transformar esses casos em espetáculo.
Saem de cena reconstituições criminais e depoimentos de especialistas, que costumam antecipar eventos e esclarecer jargões criminais. Em entrevista ao The Washington Post, Gandbhir disse ter priorizado a imersão e a capacidade do público de formular opiniões próprias.
Na tela, as imagens granuladas das câmeras registram os ambientes em 360 graus. A diretora preserva a longa duração desses registros e, no início, mostra policiais acionados por denúncias da mulher defendendo as crianças do bairro. Após o assassinato, porém, os agentes evitam questionar as aparências sugeridas pelo título.
No caso desse documentário, a verificação dos arquivos criminais foi assegurada pela lei de acesso à informação, mas acusações contra policiais, que supostamente desligam suas câmeras em operações irregulares, geram dúvidas sobre a credibilidade dessa fonte material.
Mesmo assim, Labaki diz acreditar que o recurso será cada vez mais utilizado. Ele cita produções como “Incident“, curta vencedor do Oscar que alterna câmeras de rua com câmeras corporais ao denunciar a morte de um homem negro, e o brasileiro “Auto de Resistência“, vencedor do É Tudo Verdade de 2018. Na obra, a ferramenta é usada para documentar a violência policial sistemática contra civis.
Entre as grades de uma prisão, “Alabama: Presos do Sistema“, também indicado ao Oscar, segue detentos que usam celulares contrabandeados para protestar contra condições precárias. Dirigido por Andrew Jarecki e Charlotte Kaufman, o projeto mistura noticiários, gravações profissionais e transmissões móveis, com imagens de baixa definição captadas numa unidade de contenção.
Disponível no HBO Max, a obra nasceu do encontro entre o Free Alabama Movement, grupo que expõe agressões frequentes e a má preservação de celas num canal de YouTube, e a dupla de diretores. Em 2003, aliás, Jarecki conquistou o Oscar com “Na Captura dos Friedmans“, longa que junta vídeos caseiros de uma família e narra a condenação de pai e filho por armazenamento de pornografia infantil.
O longa mostra uma época em que captações migravam da película —comum a documentaristas como Jonas Mekas, expoente do cinema vanguardista americano— para filmadoras portáteis. Com o tempo, inclusive, esses equipamentos trouxeram novos ângulos de filmagem e possibilitaram gravações em espaços apertados.
“Hoje, numa época em que todos filmam com seus iPhones, as imagens têm se tornado extremamente baratas”, afirma Borenstein. Ele sugere que cineastas como o alemão Michal Kosakowski, destaque dos anos 2000 com visuais inventivos, podem ter perdido impacto em meio ao turbilhão de estímulos digitais.
Mas a internet também auxilia trabalhos como os de Kosakowski, reunidos num site próprio em que podem ser alugados ou vistos gratuitamente. Seus temas sensíveis, que embaralham realidade e ficção ao explorar traumas de guerra, dificultam a circulação pelo mainstream. A situação é parecida com a de “Sem Chão“, documentário sobre tensões entre Israel e a população palestina que penou para conseguir distribuidores mesmo depois de vencer o Oscar.
O longa despertou debates ao redor do mundo e ganhou fôlego em plataformas de aluguel como o Google Play.
“Conforme câmeras compactas e lentes versáteis se reproduziram, os documentários buscaram se tornar mais cinematográficos”, adiciona Borenstein, que noutras produções explorou a relação entre a internet e os usuários. “Aquele foi um tempo de muita experimentação, e a impressão que fica agora é a de estarmos aguardando uma nova revolução.”
Essas transformações contribuíram para outros documentários de guerra —como “20 Dias em Mariupol“, que vê a invasão à Ucrânia pela visão de jornalistas—, mas também contemplam crises pessoais e mesmo produções hollywoodianas. Exemplo disso são os diários pandêmicos que tomaram as redes e nomes como Luc Besson e Charlie Kaufman, que subverteram burocracias da quarentena e de grandes estúdios via aparelhos móveis.
Longe de ser uma necessidade recente —Labaki descreve experimentos dos anos 1920, quando filmes científicos exigiam gravações submersas, por exemplo— a praticidade oferecida por celulares não só alimenta bancos de arquivos e perfis de conteúdo, como também alinha visões de mundo.
“Esses três indicados ao Oscar partem de cineastas que incorporaram imagens produzidas por terceiros”, diz. “Em ‘Presos do Sistema’, por exemplo, os diretores ampliaram o alcance de imagens que já faziam parte daquela rotina.” Ele compara o filme de Jarecki e Kaufman com “O Prisioneiro da Grade de Ferro“, documentário brasileiro de 2003 em que detentos do Carandiru aprendem a filmar sua rotina.
“Essas pessoas não capturavam imagens para emular o documentário de cinema, mas para melhorar a realidade delas e de muitos outros. Já eram documentaristas da sua própria realidade.”