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Oscar reforça tradições e se fecha ao terror de Pecadores – 16/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Filmes de terror e blockbusters são cada vez mais bem-vindos no Oscar —contanto que respeitem padrões da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas e se distanciem de prêmios máximos. A regra não dita acaba de ser reforçada por “Pecadores“, híbrido entre as duas searas que levou só quatro dos 16 troféus que disputou este ano.

O longa se tornou um dos sucessos mais inesperados de 2025 ao unir o drama histórico —tradição que já conquistou muitos troféus— e o horror com vampiros, mostrou que o boca a boca ainda faz a diferença para atrair espectadores e conquistou a crítica com discussões raciais voltadas à apropriação cultural.

O longa beneficia uma premiação que, em 2015, foi rechaçada por indicar apenas artistas brancos em categorias principais. Numa época em que a internet reúne parte dos debates sociais, diante de uma Hollywood retraída politicamente, a Academia estuda maneiras de superar imagens conservadoras e recuperar a audiência.

Liderado por atores negros —derrotados nas categorias coadjuvantes—, “Pecadores” se tornou o filme mais indicado da história do Oscar e venceu as estatuetas de melhor ator, com Michael B. Jordan, roteiro original, trilha sonora e fotografia.

Se parte da imprensa via “Pecadores” como único que podia derrubar o favoritismo de “Uma Batalha Após a Outra” —título que levou seis estatuetas, incluindo as de melhor direção e de melhor filme—, outra parcela já suspeitava que o histórico da premiação para esse tipo de longa seria um impeditivo natural.

Afinal de contas, desde participações pontuais nos anos 1970, os filmes de terror e os blockbusters são incorporados apenas como modo de reconhecer, mas nem sempre premiar, as habilidades rigorosas de certos cineastas e os seus fenômenos técnicos que, em casos de franquias indicadas como “Indiana Jones” e “Star Wars”, transformaram o cinema.

Em 1973, por exemplo, a indicação de “O Exorcista” à categoria máxima se deu na esteira do Oscar de melhor filme que William Friedkin recebera um ano antes, pelo drama policial “Operação França“. Dois anos mais tarde, quando Steven Spielberg revolucionou o mercado de sucessos comerciais com o seu “Tubarão“, a ausência do longa sobre um predador assassino poderia ter provocado um estranhamento.

Mais tarde, em 1991, “O Silêncio dos Inocentes” fez do suspense, título rejeitado pelos que classificam o filme como terror, uma forma de abocanhar a estatueta principal. Ao final daquela década e no início da próxima, produções multimilionárias, como o “Titanic” de James Cameron e o terceiro “O Senhor dos Anéis“, de Peter Jackson, empilharam troféus diversos, incluindo os de melhor filme, numa mesma edição.

Hoje, num mundo em que técnicas do audiovisual se banalizaram e os primores visuais são mais raros, se tornou cômodo à Academia, dividida entre novos membros e uma velha guarda, disfarçar tradições ao aproximar filmes não convencionais de categorias técnicas —o “Frankenstein” de Guillermo Del Toro, por exemplo, venceu os prêmios de melhor maquiagem e cabelo, figurino e direção de arte— e reservar as principais para longas de maior status.

Fora os prêmios de fotografia e de trilha sonora concedidos para “Pecadores”, votantes também parecem crer que premiar a relevância social desses projetos, mais que a sua criatividade, parece ser o suficiente. Isso pode explicar a vitória do diretor Ryan Coogler —que viu o seu “Pantera Negra” se tornar o primeiro longa de super-herói a disputar o prêmio de melhor filme— como roteirista, conquista próxima à de Jordan Peele com o horror “Corra!“, que em 2018 foi recebido enquanto inovadora crítica ao racismo.

Na época, Peele colhia os frutos de sua aclamada estreia na direção. Nos anos seguintes, conforme as mensagens políticas de seus “Nós” e “Não! Não Olhe!“, épico que mistura faroeste e alienígenas, se tornaram menos explícitas, as críticas positivas permaneceram, mas as indicações à cerimônia da Academia evaporaram.

A rejeição das tramas e imagens propostas pelo cineasta não foram o único motivo de revolta por parte da cinefilia. Protagonista de “Nós”, Lupita Nyong’o —vencedora do troféu de melhor atriz coadjuvante por “12 Anos de Escravidão“— se juntou a atrizes como Toni Collette, de “Hereditário”, e Florence Pugh, de “Midsommar“, que tiveram seus papéis esnobados por premiações.

Apesar do avanço, a vitória de Amy Madigan por “A Hora do Mal“, um ano após a lembrança de Demi Moore por “A Substância” —que, naquela noite, recebeu só o prêmio de melhor maquiagem e cabelo, pelas transformações grotescas de suas personagens— também mira um reconhecimento ilustrativo e que busca a aproximação com os espectadores.

Não por acaso, ainda que “A Hora do Mal” tenha sido indicado apenas à categoria de atriz coadjuvante, a Academia celebrou uma de suas cenas mais marcantes ao arriscar uma abertura que, com o comediante Conan O’Brien, rendeu muitas risadas. Mesmo o grande vencedor da noite, “Uma Batalha Após a Outra”, encontrou no equilíbrio entre o humor irreverente e comentários sobre as políticas de imigração americanas a força de sua campanha.

Ao reunir gêneros diversos, como a ação, o suspense e a comédia, o longa surgiu como estratégia perfeita para reconhecer tardiamente a carreira de Paul Thomas Anderson —que, apesar da escala épica, digna de blockbusters, costuma priorizar a profunidade de seus dramas e personagens—, diagnosticar problemas da sociedade americana —sem que estes fossem diretamente enunciados—, e reforçar as tentativas de tornar a cerimônia ainda mais acessível.

No caso de “O Agente Secreto“, porém, que tempera sua trama com lendas brasileiras, a mistura de gêneros não superou o drama de “Valor Sentimental”. Para filmes como o brasileiro e aqueles repletos de sangue falso, dentes pontiguados e outros aspectos sobrenaturais, a trilha para a categoria máxima ainda será longa.

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