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Osesp confronta o amor impossível, com Wagner e Debussy – 07/04/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Por séculos, os compositores evitaram o trítono de qualquer maneira. Na Idade Média, a Igreja Católica difundiu um mito que associava o intervalo composto por três tons inteiros à representação musical do diabo. O alemão Richard Wagner não foi o primeiro a usar o trítono, mas foi ele quem o incrementou até criar o acorde de Tristão, que inicia o “Prelúdio”, da ópera “Tristão e Isolda”, cuja estreia ocorreu em 1865, em Munique, Alemanha.

O acorde prenunciou o esgotamento do sistema tonal e a chegada de um século de revoluções musicais, impactando até mesmo o desenvolvimento do atonalismo pela Segunda Escola de Viena. Dentro da ópera, a sequência de notas fá, si, ré sustenido e sol sustenido é repetida à exaustão e nunca se resolve até que, depois de cinco horas de drama e música, a tragédia se concretiza na cena final, “Liebestod”, a “Morte de Amor”.

Ambos os momentos —”Prelúdio” e “Liebestod”— são apresentados agora pela Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo, a Osesp, no programa “Amores Impossíveis”, que tem ainda outros dois excertos de ópera e um concerto: a “Suíte”, de “Pelléas e Mélisande”, ópera de Debussy, a “Fantasia Sinfônica” sobre “A Mulher sem Sombra”, de Strauss, e o “Concerto para Violino em Ré Maior”, de Tchaikovski.

O programa enfatiza a música lírica e une as obras selecionadas por uma ideia presente em todas elas: a impossibilidade da consumação amorosa. O maestro francês Fabien Gabel, que faz sua estreia no continente sul-americano, estará à frente do conjunto. “É um momento importante da minha carreira, porque a Osesp tem a reputação de ser a melhor orquestra da América Latina, então é uma honra para mim ir ao Brasil agora”, diz ele, por videoconferência.

Gabel é diretor musical da Orquestra Tonküstler, de Viena, posto ocupado, no fim dos anos 1980, pelo brasileiro Isaac Karabtchevsky. Nessa temporada, ele também fez seu début no Metropolitan Opera House, em Nova York, com “Carmen”, de Bizet. O regente afirma não ser especialista em ópera, embora tenha trabalhado em muitos títulos quando integrava orquestras como trompetista. Diz não pensar nas diferenças entre música lírica e música sinfônica ao empunhar a batuta e que prefere reger Wagner com o andamento mais acelerado.

Segundo Gabel, a leveza da tradição francesa é um diferencial para esse repertório, algo reconhecido pelo próprio autor alemão. Vieram também da França alguns dos ataques mais virulentos à música de Tchaikovski.

Pierre Boulez, um dos maestros mais importantes do pós-guerra, odiava a obra do compositor russo, sentimento que jamais guardou para si. Gabel busca uma visão mais ponderada. “Tchaikovski não é vulgar. Ele foi um grande melodista, fez uma música sincera. Os balés são irregulares, mas as sinfonias são brilhantes e sensíveis.”

Assim como no drama da vida, os amores impossíveis da história da música são singulares. Em “Tristão e Isolda”, o “Prelúdio” lembra o conceito de “Sehnsucht”, central no Romantismo alemão. Musicalmente, “Sehnsucht” sugere desconforto e instabilidade, mas é sintomático que o termo, ora entendido como desejo, ora como nostalgia, seja intraduzível ao português. Wagner ambicionou alcançar o indizível quando recuperou a lenda medieval sobre a paixão de um cavaleiro por uma princesa, forçada a se casar com o rei Marke.

Dentro de uma estrutura metafísica, o compositor encena O Amor –e não um amor–, aquele que jamais poderá ser consumado no plano terreno. Ferido, Tristão morre nos braços de Isolda, que entoa o “Liebestod” e morre. Os amantes se diluem, enfim, na respiração universal, o que Wagner chama de “Verklärung”, isto é, transfiguração, ideia retomada por Strauss e Schönberg.

“O artista romântico pressente a transcendência pela arte, por isso Isolda vai para o nirvana. Ela acredita que esse seu sentimento pode ser transfigurado”, diz Yara Caznok, professora do Instituto de Artes da Universidade Estadual Paulista, a Unesp.

O programa da Osesp também apresenta a “Suíte”, arranjada por Alain Altinoglu, a partir de excertos de “Pelléas e Mélisande”. A obra de Debussy estreou em 1902, em Paris, alicerçada no libreto simbolista de Maurice Maeterlinck. A “Suíte” é permeada por silêncios, que representam a separação do casal. De modo análogo, os cantores, ao longo da ópera, nunca exprimem seus sentimentos por completo. “Pelléas e Mélisande”, afinal, reconfigurou o gênero ópera, com uma nova maneira de se conceber o tempo musical e o espaço da cena.

Unir Debussy a Wagner é também pensar a relação entre os dois compositores, um nó na história da música —e quiçá na mente do músico francês.

“Debussy fazia uma defesa muito forte da tradição francesa e reagia ao wagnerismo. Ao mesmo tempo, ele aprendeu muito com Wagner. Debussy é um Wagner ao contrário”, afirma Jorge de Almeida, professor de teoria literária e literatura comparada da Universidade de São Paulo. Enquanto a ideia de superação está em “Tristão e Isolda”, conta o professor, “Pelléas e Mélisande” traz uma perspectiva de resignação. No lugar da melodia infinita wagneriana, Debussy propõe uma harmonia estática.

Para completar os excertos, ouviremos a “Fantasia Sinfônica” sobre “A Mulher sem Sombra”. Na história, o amor impossível é marcado pela esterilidade da personagem principal. A “Fantasia” foi escrita pelo próprio Strauss para uma orquestra bem menor do que a empregada nas encenações, com cerca de 170 músicos. Tal excrescência é um dos entraves para não se haver notícias de montagens do título no Brasil. Tampouco ajuda o libreto do poeta Hugo von Hofmannsthal, conhecidamente rocambolesco.

Almeida diz que, no conjunto da obra de Strauss, esse conto de fadas é uma realização menor. Em contraste, Caznok conta que “A Mulher sem Sombra”, em termos musicais, reúne alguns dos elementos mais refinados do compositor alemão. Por fim, Tchaikovski tematiza um amor impossível mais terreno ao escrever, em 1865, seu “Concerto para Violino”, agora interpretado pelo sueco Daniel Lozakovich, artista residente da temporada da Osesp.

A obra em três movimentos foi motivada pelo amor proibido de Tchaikovski pelo seu amante, o jovem violinista Iosif Kotek. No domingo (26), a Osesp expande o tema dos amores impossíveis para um programa de música de câmara, com obras de Schumann e Brahms.

Quanto aos excertos de óperas, a escolha de interpretar passagens puramente instrumentais, abdicando da cantora solista no “Liebestod”, como acontece tantas vezes, só ressalta o tratamento sinfônico dos compositores. Mais até, a Osesp lembra que todo amor impossível nos deixa assim, sem palavras.

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