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Padrões tóxicos antigos contra mulheres voltam no TikTok – 27/03/2026 – Ilustrada

by Silas Câmara

Apesar da onda nostálgica, é impossível pensar nos anos 1990 e 2000 só como uma fonte de inspiração para uma vida mais analógica e autêntica. Ambas as décadas produziram imagens que, até hoje, influenciam comportamentos pejorativos em relação às mulheres —entre elas mesmas e por parte dos homens.

Pense nas infames chamadas em jornais ou revistas a respeito do corpo de Britney Spears, Nicole Richie e Jessica Simpson. Ou nos incontáveis videoclipes em que jovens garotas dançavam seminuas em volta de músicos. Até no recém-problematizado programa de TV America’s Next Top Model, que colecionou episódios de gordofobia, abuso psicológico e incentivo à magreza extrema em rede mundial.

Por mais que boa parte desses exemplos já esteja na casa dos 30 anos, há uma perigosa reciclagem de comportamentos e pensamentos da época reeditados, mixados e viralizados nas redes sociais.

Esse contexto serviu de inspiração para Sophie Gilbert, jornalista e crítica da revista The Atlantic, escrever seu novo livro, “Garota Sobre Garota”.

A reunião de ensaios em ordem cronológica de acontecimentos é conectada pela observação de como o pós-feminismo afastou a sociedade dos avanços dos movimentos feministas dos anos 1970 e 1980, propondo uma falsa ideia de libertação, calcada no consumo e no individualismo.

Cada capítulo se atenta a um formato de mídia (moda, música, arte, TV, cinema, jornalismo etc.), sempre mostrando as consequências dessas indústrias na imagem e no comportamento das pessoas, a nível subjetivo e coletivo.

“Acho que nunca mais veremos programas de TV tão gordofóbicos quanto alguns reality shows eram, mas por algum motivo, no TikTok, como se trata de outra plataforma e outro público, parece que nada mudou”, diz ela em entrevista à Folha. “Isso é frustrante.”

Na contramão de um certo avanço do movimento body positive, conteúdos sobre emagrecimento rápido, indicação de remédios e a normalização dos distúrbios alimentares, tão comuns nos anos 2000, só reforçam imagens e posturas ainda enraizadas —antes de ser banida em junho do ano passado, a hashtag #SkinnyTok tinha mais de 2 bilhões de visualizações.

“Sinto que vivemos um momento terrível de culto à dieta, mesmo depois de já termos superado isso em algum momento. É só surgir um remédio que facilite o processo [de emagrecimento] que o mercado inteiro volta a promover isso”, diz.

Assim como Arabelle Sicardi e Gina Tonic, que publicaram, respectivamente, os livros “The House of Beauty: Lessons from the Image Industry” (a casa da beleza: lições da indústria da imagem) e “Greedy Guts” (glutão), Gilbert diz acreditar que impor magreza às mulheres a qualquer custo também é algo intimamente ligado a política.

“Vivemos um momento de conservadorismo ressurgente e até de ódio explícito às mulheres online. E a resposta de muitas mulheres tem sido se tornar menores, ocupar menos espaço.”

Do outro lado dessa moeda digital, existe o uso indevido de tecnologias para prejudicar as mulheres —algo que, como mostra “Garota Sobre Garota”, acontece desde que a internet abriu espaço para fóruns e comunidades.

Exemplos atuais incluem o uso do Grok, inteligência artificial do X, para remover roupas de fotos postadas no Instagram e também os deep fakes com imagens de influenciadoras digitais. “Se cairmos no discurso de que as imagens estão na internet para serem usadas, significa que a responsabilidade continuará recaindo sobre as mulheres, ao invés de os homens mudarem o comportamento deles.”

O livro empresta ao leitor ferramentas para refletir, inclusive, sobre um escândalo mais recente —os arquivos de Jeffrey Epstein.

Gisèle Pelicot diz algo muito poderoso: ‘a vergonha deve mudar de lado’. Acho inspirador de diversas formas, mas me questiono o que fazer quando os homens não sentem vergonha. Porque esses não sentiram vergonha de serem amigos de Epstein, um criminoso sexual condenado.”

Segundo ela, o que mais a perturbou nos 3 milhões de documentos divulgados pelo governo dos Estados Unidos foi perceber como as mulheres eram vistas apenas como objetos sexuais, nunca em equiparação de poder com os homens.

“Muitos desses ricos e poderosos se acostumaram a pensar assim e ninguém os desafia. Embora sejam tempos sombrios de se viver, é bom que isso esteja vindo à tona, porque talvez possamos usar esse momento para forçar uma conversa diferente.”

Segundo a autora, outro caminho de fôlego em meio ao caos são as mulheres que trabalham na indústria audiovisual para propor novos jeitos de criar personagens, filmar corpos e apresentar narrativas em desfalque na cultura.

É o caso de “Nightbitch”, que trata da transformação quase aterrorizante da identidade após a maternidade, e “A Substância”, um “body horror” sobre padrões de beleza irreais e inalcançáveis. “Existem muitas cineastas brilhantes. Eu só gostaria que tivessem mais oportunidades.”

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