As canetas emagrecedoras já representam mais do que o dobro das vendas de medicamentos do Farmácia Popular na rede Pague Menos. Os produtos para perda de peso responderam por 9,1% das vendas no intervalo entre outubro e dezembro, que somaram R$ 4,3 bilhões. Em contrapartida, os medicamentos do programa Farmácia Popular representaram 4,4% do total.
“As canetas emagrecedoras vão ser mais revolucionárias para a sociedade do que foi a descoberta da penicilina, em 1928”, disse à Folha Jonas Marques, CEO da Pague Menos. “O GLP-1 [princípio ativo das canetas] atua no sistema límbico e inibe a compulsão. Isso é muito forte”, afirma o executivo, formado em psicologia, que trabalhou por 30 anos na indústria farmacêutica antes de assumir a Pague Menos.
O Farmácia Popular compreende 39 medicamentos para doenças crônicas (asma, diabetes, hipertensão, osteoporose, colesterol alto, Parkinson, glaucoma, rinite), além de contraceptivos e itens de higiene pessoal (absorvente e fralda geriátrica). Os medicamentos e produtos são subsidiados pelo governo federal, que credencia farmácias em todo o país para retirada gratuita pelos pacientes com receita.
Nas redes do varejo farmacêutico em geral, o Farmácia Popular responde por 2,2% das vendas totais segundo a Abrafarma (Associação Brasileira de Farmácias e Drogarias). Considerando apenas as vendas de medicamentos, o Farmácia Popular representa 3,3%. Na Pague Menos, portanto, a fatia do programa é maior —4,4% das vendas—, tendo em vista o perfil da rede, voltada aos públicos B e C.
Para 2026, as canetas emagrecedoras devem seguir ganhando participação nas vendas, diz Marques, em especial devido à quebra de patente da semaglutida, que vai ampliar o acesso ao tratamento. “Mesmo com o alto custo de hoje, existe uma demanda reprimida pelo produto. Quando a patente cair, a procura vai aumentar ainda mais.”
Na Pague Menos, os usuários de canetas emagrecedoras entram na somatória dos “clientes de cuidado contínuo”, como a rede chama os pacientes crônicos que têm sido o foco do seu crescimento desde o ano passado. Na rede, esses clientes somam hoje 5,8 milhões e gastam em média R$ 1.836 —um avanço de 11,5% e de 15%, respectivamente, sobre os números observados em 2024.
A rede aposta na fidelização desta clientela que faz uso contínuo de medicamentos, a partir da oferta de serviços gratuitos nas unidades, como testes de pressão arterial, bioimpedância ou exames como hemoglobina glicada. Na opinião de Marques, são estes serviços e um atendimento atencioso que distinguem a rede de competidores interessados apenas na venda de produtos, como os supermercados, que acabam de receber aprovação para oferta de medicamentos nas lojas.
Com sede em Fortaleza, a Pague Menos é a segunda maior rede do varejo farmacêutico do país, só atrás da RD Saúde (redes Raia e Drogasil). Encerrou 2025 com 1.689 lojas, cerca de 60% delas na região Nordeste. No ano, a receita líquida somou R$ 14,9 bilhões (alta de 17,9% na comparação anual), o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) ajustado foi de R$ 1,39 bilhão (avanço de 26%) e o lucro líquido mais do que dobrou, para R$ 266,9 milhões (alta de 108%).
Pesquisa da NielsenIQ Brasil revelou que as canetas emagrecedoras, conhecidas pelos nomes comerciais de Ozempic, Wegovy e Mounjaro, entre outros, estão em uma faixa de 25% a 30% dos lares no país —seja a versão oficial dos medicamentos, que exigem prescrição médica, as genéricas como as “canetas do Paraguai“, ou as versões manipuladas aplicadas por endocrinologistas em consultórios (prática proibida pela Anvisa —Agência Nacional de Vigilância Sanitária).
O tratamento com Mounjaro, considerado o mais eficaz, custa a partir de R$ 1.400 ao mês, mas já existem opções nacionais como o Olire, da EMS, que têm como princípio ativo a liraglutida, a R$ 300 ao mês.
A presença do produto deve aumentar nos lares, uma vez que a patente do Ozempic está prevista para cair neste mês, no próximo dia 20. Com os genéricos, o preço da caneta emagrecedora pode ser reduzido em até 35%, segundo expectativa da EMS.