A escolha de Kevin Warsh para comandar o Fed reacendeu um debate relevante: até que ponto a inteligência artificial pode funcionar como um vetor estrutural de desinflação e influenciar a condução da política monetária?
Em pronunciamentos recentes, Warsh tem defendido que a IA representa um choque positivo de produtividade, capaz de elevar a eficiência e reduzir custos. À primeira vista, esse conjunto de fatores parece sugerir um ambiente mais benigno para a inflação e, consequentemente, para os juros.
A ideia de que o banco central deveria “apostar” em ganhos de produtividade ainda invisíveis para suavizar o peso dos dados correntes, como emprego, inflação, expectativas e impulso fiscal, acaba relativizando o papel central da evidência empírica que sustenta a atuação da autoridade monetária. Concluir que a política monetária poderia se tornar estruturalmente mais frouxa com base nessa hipótese é, no mínimo, precipitado.
Um ponto fundamental, e frequentemente negligenciado, é que inflação e taxa de juros de equilíbrio não respondem aos mesmos “motores”. O juro neutro, aquele compatível com crescimento sustentável e inflação na meta, é definido pelo equilíbrio intertemporal entre poupança e investimento. Quando a produtividade avança de maneira persistente, a economia não apenas cresce mais; ela passa a oferecer mais oportunidades de investimento rentáveis. Isso eleva o retorno esperado, aumenta a demanda por financiamento e, como consequência, eleva o juro real de equilíbrio.
É justamente aí que a inteligência artificial gera um efeito ambíguo para a política monetária. Ela pode, sim, aliviar pressões inflacionárias. Mas, ao mesmo tempo, também tem o poder de estimular a expansão de investimentos em infraestrutura digital, energia, data centers e capacitação de trabalhadores. Esse movimento não necessariamente empurra os juros para baixo e pode, em alguns casos, tornar-se uma fonte de pressão altista.
O Fed pode cortar juros ao longo do ciclo se a inflação permitir, mas isso não significa um retorno ao regime de juros estruturalmente mais baixos da década passada. Se o crescimento potencial da economia é maior, o juro neutro também será.
Há ainda dois outros pontos frequentemente mal colocados nesse debate. Warsh costuma recorrer à sua analogia preferida com os anos 1990, no início da internet, quando o então presidente do Fed, Alan Greenspan, decidiu não reagir preventivamente ao crescimento acelerado da economia, apostando em ganhos de produtividade.
De fato, a inflação permaneceu bem comportada por um período prolongado. No entanto, a experiência posterior —marcada pelo estouro da bolha da internet— evidenciou que a ausência de pressões inflacionárias não equivale à ausência de vulnerabilidades. Mesmo em ambientes de inflação estável, desequilíbrios podem se acumular em preços de ativos, crédito e alavancagem. A lição não é que ganhos tecnológicos sejam irrelevantes, mas que riscos financeiros não podem ser negligenciados.
O segundo ponto é que, caso a difusão da IA provoque deslocamentos no mercado de trabalho, juros mais baixos não resolvem o problema. O desemprego decorrente da automação não é cíclico, mas estrutural. Reduzir juros não ensina novas competências, não requalifica trabalhadores e não altera a natureza das vagas geradas pelo avanço tecnológico. Misturar esses canais pode ser contraproducente.
A inteligência artificial pode até atuar como uma força desinflacionária relevante. Isso, porém, não implica um regime de juros estruturalmente mais baixos nem autoriza o banco central a substituir evidências por suposições.
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