Uma gangorra rosa atravessa um muro que separa os Estados Unidos e o México. A cor vibrante desafia a a barreira enferrujada e conecta populações em um exercício lúdico. Desenvolvida por Rael San Fratello, a performance filmada reflete ideais de Paulo Mendes da Rocha, arquiteto brasileiro que pauta a exposição “A Terceira Margem da Cidade”, em cartaz no MuBE, o Museu Brasileiro da Escultura e da Ecologia.
Responsável pelo local —conhecido pelo salão subterrâneo e pela praça que recebe os visitantes— , o urbanista repensou a erudição técnica ao aproximar cidades e populações. No processo, readequou prédios, com mudanças mínimas e sustentáveis, para conceber projetos como a Pinacoteca e idealizou centros plurais, voltados a encontros entre grupos diversos e com a natureza.
Registros que resumem esse histórico dividem a sala com diferentes materiais. Utensílios, chapéus, teclados, cones de trânsito e outros objetos compõem um bloco maciço. São vestígios que ganharam novos significados nas mãos de Gordon Matta-Clark, reciclados como a loja antiga que Mendes da Rocha tornou no Sesc 24 de Maio.
A peça é uma das várias que, separadas em eixos temáticos, celebram a filosofia do homenageado e os 30 anos do MuBE. “Paulo não falava de congelar o mundo que existe, mas de melhorar a qualidade com a mínima intervenção possível”, diz o urbanista Fernando Túlio, curador da exposição ao lado do arquiteto Guilherme Wisnik.
Se o emaranhado de restos aborda a reciclagem, marcas de pneu na parede e imagens que embaralham asfalto e zonas verdes questionam o sistema rodoviário. Em “Coletivos 3”, de Cássio Vasconcellos, fotos áereas sobrepostas mostram um cenário caótico, onde carros andam por todos os lados, mas avenidas atrapalham a circulação dos que dependem do transporte público.
Ao lado, uma bicicleta carrega um amontoado de tijolos. A obra do mexicano Héctor Zamora substitui o homem pela matéria de construção civil e inverte definições de corpo e trabalho à luz do deslocamento urbano. Já no trabalho de Fábio Riff, uma máquina imita tabelas de Excel. Ela calcula dados ambientais, como emissões de gases de efeito estufa, e emite alertas com cores vibrantes.
Ao redor de mapas ferroviários, com organizações adaptadas a rios, e croquis também de Mendes da Rocha —caso do Cais das Artes, complexo cultural inaugurado recentemente na orla de Vitória— a área seguinte desenvolve relações entre a sociedade e a água.
Pendurada pelo teto, uma malha metálica envolve cilindros prateados e se estira no chão. A escultura de Arthur Lescher aproxima o material sólido do comportamento fluvial. A ideia é denunciar efeitos da industrialização, cada vez mais agressiva, sobre as fontes hídricas da Terra.
Ao acessar a próxima seção, o visitante cruza grãos de areia e uma longa fileira de tijolos, revestidos por placas transparentes. A peça de Ary Perez, Flávia Quadros e Débora Araujo representa The Line, cidade linear prevista para ocupar o deserto da Arábia Saudita num futuro longínquo.
Túlio faz coro a especialistas que consideram o projeto inviável e o situa entre exemplos de novas barreiras, literais e simbólicas, que a humanidade quer erguer —na maioria por pressões capitalistas e em escalas utópicas. Junto a malhas de trens que indicam zonas indígenas afetadas pelo comércio, a cartógrafa Carolina Passos e a artista Hind Al-Shoubaki pintam linhas e círculos vermelhos no mapa-múndi.
São ilustrações que identificam muros fronteiriços e rotas de imigração, resultados dessas obstruções. “Elas refletem conflitos que dominam regiões como o Oriente Médio e a África, em decorrência da extrema-direita, e dialogam com a crítica que Paulo sempre fez aos efeitos do colonialismo”, afirma Túlio.
Ao comentar esses obstáculos artificiais, alguns imaginários, o curador introduz o eixo final da exposição. Com desenhos feitos por crianças e fotografias de atividades comunitárias —caso da Formigas de Embaúba, ONG que monta miniflorestas em jardins públicos— o segmento sugere soluções para o futuro.
Divididas entre a área interna e a praça do museu, as obras evidenciam transformações próximas às que Mendes da Rocha buscava. No subterrâneo, uma instalação da Fazendinhando —organização que reaproveita objetos descartados em comunidades— reúne uma torneira, uma porta e uma janela ao simular uma sala. O cômodo idealizado por Ester Carro ainda traz o dizer “favela regenera”.
Já na superfície, uma minifloresta da Formigas de Embaúba junta plantas que miram o céu. “O reflorestamento antecede o manejo da terra com plantas que serão retiradas para enriquecer o solo”, diz Túlio. “Essa clareira do concreto ilustra apenas o início de uma floresta, mas antecipa o futuro.”