O texto de “Minha Estrela Dalva” nasceu em uma tarde, mas Renato Borghi precisou de uma vida inteira para escrevê-lo. E, embora o ator em cena fique sentado no canto do palco, ele é o centro ao redor do qual gravita Dalva de Oliveira, uma das maiores divas da era do rádio e sua musa desde a infância, agora reencarnada no gesto e na voz de Soraya Ravenle.
“Eu me apaixonei por ela com seis aninhos, ouvindo o disco da ‘Branca de Neve'”, afirma o carioca, que estreia o espetáculo nesta semana, às vésperas do seu aniversário de 89 anos, na segunda. “Fugia de casa, aos 12, para vê-la cantar na praça Mauá. Era um perigo”, diz, referindo-se ao local onde ficava a sede da Rádio Nacional, no centro do Rio de Janeiro.
O episódio é um dos primeiros da peça que chega neste sábado ao Teatro Sesi, na avenida Paulista, em São Paulo, com ingressos gratuitos e algumas sessões já esgotadas.
Agora, Borghi deixa de ser apenas um assíduo ouvinte dos sambas-canção e boleros mais sofridos da música nacional para protagonizar, com Dalva, um musical não linear. Num cenário minimalista e onírico, com escadas espalhadas pelo palco e uma banda ao fundo, a dramaturgia embaralha memórias e fantasias dele com passagens biográficas dela, entremeadas por 25 canções e ousadias cênicas.
Se numa cena Ravenle domina o palco, incorporando a voz de soprano e os vibratos característicos de Dalva ao cantar “Neste Mesmo Lugar” ou “Olhos Verdes”, noutra, vemos Borghi interpelar a artista no camarim com a letra de “Balada da Dependência Sexual”, um dos clássicos da “Ópera dos Três Vinténs”, de Kurt Weill e Bertolt Brecht.
E é por meio do teatro épico criado pelo autor alemão —no qual os atores não podem desaparecer em seus personagens— que o espetáculo foge da fórmula por trás da enxurrada de musicais biográficos que toma os palcos há alguns anos.
Borghi é um dos maiores nomes do teatro ainda em atividade e também já apostou nesse tipo de dramaturgia, mas bem antes da moda. Em 1987, escreveu “A Estrela Dalva”, com Marília Pêra no papel principal, buscando combater o esquecimento da estrela. Algo que se agravou de lá para cá, apesar de a história dela ter sido contada em rede nacional na minissérie “Dalva e Herivelto”, com Adriana Esteves, em 2010, e de ser tema de um ativo fã-clube nas redes sociais.
“Não dava para voltar com essa peça. Depois dela, todo mundo fez igual. Poderia parecer que a pioneira era imitação”, diz Elcio Nogueira Seixas. Parceiro de Borghi há três décadas com a Companhia Teatro Promíscuo, Seixas dirige o espetáculo ao lado de Elias Andreato e também atua, em cena, como uma versão mais jovem do mestre.
O personagem duplo tenta realizar um antigo desejo de Borghi —dirigir um show em que Dalva cantasse o repertório de Weill e Brecht, algo que se concretiza no clímax do espetáculo. “Não deu tempo. Quando a ideia se formou, ela ficou muito doentinha e morreu”, diz o ator, que chegou a levar sua musa ao Teatro Oficina para ver as ousadias de “Na Selva das Cidades”, de 1969.
Dalva tinha 55 quando foi vitimada por um câncer de esôfago. Era 1972, já longe dos seus maiores sucessos dos anos 1940 —como “Ave Maria no Morro” e “Olhos Verdes”, do repertório do Trio de Ouro, com o primeiro marido, o compositor Herivelto Martins e o cantor Nilo Chagas— ou dos 1950 —na carreira solo consagradora, de “Tudo Acabado” e “Kalu”.
Foi um fim de vida marcado por problemas com o álcool, com dinheiro, com um terceiro marido bem mais jovem —e aproveitador— e com a própria imagem, já que um acidente de carro a marcara com uma grande cicatriz na bochecha.
Uma realidade que Borghi conheceu em visitas à mansão dela em Jacarepaguá, no Rio —”enorme, com piscina, jaula de macaco, cachorrinhos chihuahua pela casa”. “E Dalva era desbocada”, lembra o ator, nem tinha vergonha de exibir a ele suas coxas sem celulite.
“Busco traduzir essa mulher e sua alma, não ficar apenas na casca”, diz Soraya Ravenle sobre o papel. Para a atriz, em seu 32º musical, o novo trabalho também é um retorno ao seu início nos palcos. Ela começou, justamente, no coro de “A Estrela Dalva”.
Nesse meio-tempo, além de diversas novelas na TV, pôde viver, no teatro, outras divas da rádio, como Carmen Miranda, Dolores Duran e Isaura Garcia. Mulheres que, como tantas da época, acumularam problemas conjugais, entre desquites e polêmicas.
“Todas as relações da Dalva foram abusivas, violentas. Esse machismo todo é muito atual”, diz Ravenle, citando os três cônjuges da cantora, todos interpretados por Ivan Vellame, com diferentes figurinos.
De Herivelto, sobretudo, a peça destaca como o compositor genial de “Segredo” também era mulherengo, ciumento e impiedoso, tanto que a difamou numa série de textos mentirosos após a separação. Ao mesmo tempo, não teve coragem de ir visitá-la doente, no hospital, ainda que seguisse escrevendo canções que só ela podia interpretar.
“A voz dela era de uma visceralidade absurda, transbordava o tempo todo”, diz Ravenle, que incorporou, além do canto, a dicção marcada pelos “erres” radiofônicos da paulista. “Uma voz que o cigarro e a bebida não conseguiram acabar. Até o fim ela fazia milagres de agudo.”
“Mas Dalva também era uma pessoa simples no trato, muito próxima dos fãs, gostava de ficar em casa, de chinelo, cuidando do jardim e cozinhando”, afirma a atriz. “Acho que toda essa dualidade impressionou o jovem Renato.”
Na pele dessa musa que desce do pedestal pelo teatro épico, Ravenle ajuda Dalva a pôr em prática uma resposta contra todos esses desmandos —e até contra a própria peça—, bem diferente do tom apaziguador da marchinha “Bandeira Branca”, seu derradeiro sucesso.
“O grande número é quando ela canta ‘Jenny dos Piratas’ [de Brecht e Weill], inspiração para a Geni [de Chico Buarque], sobre uma mulher humilhada atrás de vingança”, diz Seixas. “As pessoas podem achar que estão vendo um drama dos anos 1950, mas o Renato traz a Dalva de volta, em 2026, em busca de justiça.”