Desde o momento em que Estados Unidos e Israel atacaram o Irã, o cenário de pesadelo para a economia global de que a maioria das pessoas falava era o fechamento do estreito de Hormuz, passagem mais importante para o petróleo no planeta.
Mas um pesadelo diferente e mais perturbador começou a se desenrolar com ataques diretos à espinha dorsal da produção de energia da região do golfo Pérsico: a perspectiva de milhões de dólares em danos de longo prazo às instalações que fornecem uma parcela crítica do gás natural mundial.
Agora, em vez de se perguntar se a guerra duraria dias ou semanas, autoridades e economistas especulam sobre efeitos que podem durar meses e anos.
“Passamos de interromper o trânsito, que é uma medida temporária, para atacar infraestrutura, que tem efeitos de longo prazo”, disse David Goldwyn, ex-diplomata americano e ex-funcionário do Departamento de Energia.
Essa nova fase da guerra começou no dia 18 de março, quando o Irã, em retaliação, realizou um ataque de mísseis contra Ras Laffan, o vasto complexo energético do Qatar. Esse alvo produz cerca de 20% do GNL (gás natural liquefeito) do mundo, um combustível transportável usado para aquecer casas, cozinhar alimentos, alimentar fábricas e gerar eletricidade em toda a Ásia e Europa.
O Irã atingiu outras refinarias e instalações de gás no Kuwait, Qatar e Arábia Saudita no dia seguinte. As investidas seguiram um ataque israelense ao campo de gás natural de Pars Sul, no Irã.
Autoridades e trabalhadores ainda estão vasculhando os escombros, e a extensão total dos danos não foi avaliada. Mesmo assim, Saad Sherida al-Kaabi, ministro de Energia do Qatar, já disse que levaria até cinco anos para reparar os estragos e que a capacidade de exportação do país reduziria em 17% neste período.
Os ataques mostraram que, apesar das relativas fraquezas do Irã, o país está exercendo enorme influência sobre a economia global. Ao usar armas de pequena escala e baixo custo para contrapor sistemas de mísseis altamente sofisticados e caros, avaliou Goldwyn, os iranianos “demonstraram uma ameaça de longo prazo de poder atacar infraestrutura em todo o golfo”.
Muita coisa permanece incerta. E as circunstâncias do terreno —e dos bastidores políticos— mudam em ritmo vertiginoso. A situação vai escalar, com mais ataques à infraestrutura energética crítica? Por quanto tempo o estreito ficará fechado? Quanto tempo a guerra vai durar? O que acontece depois que os combates pararem?
No momento, embora muitas instalações de energia no golfo Pérsico tenham suspendido as operações, a maioria está intacta.
“Ainda estamos em um ponto em que, se o estreito abrisse amanhã, a maior parte da produção de energia na região poderia voltar a funcionar razoavelmente rápido”, levando alguns meses, disse Jason Bordoff, diretor fundador do Centro de Política Energética Global da Universidade Columbia.
Mas a situação pode mudar a qualquer momento se os ataques continuarem, acrescentou.
O que está claro é que o dano dessa pressão sobre o fornecimento de energia e a indústria de navegação mundial tem o potencial de colocar a economia global em uma trajetória diferente e mais perigosa.
“Esta é de longe a maior interrupção de petróleo bruto e produtos refinados que já vimos na história”, afirmou Jason Miller, professor de gestão de cadeia de suprimentos na Universidade Estadual de Michigan. “O petróleo entra em tudo”, acrescentou, então o impacto inflacionário pode ser enorme.
Analistas da consultoria de energia Wood Mackenzie alertaram que US$ 200 por barril não está fora do campo de possibilidades em 2026, frente a cerca de US$ 73 antes da guerra.
“Eu não conseguiria imaginar que não começaríamos a ver economias entrando em recessão com preços de energia nesse patamar”, disse Miller.
Preços de energia mais altos tendem a desacelerar o crescimento econômico, aumentar o desemprego e acelerar a inflação.
Também é importante notar que o preço do diesel e do combustível de aviação —que são processados de forma diferente— geralmente sobe mais rápido do que a gasolina que os motoristas compram nos postos. E isso tem um efeito desproporcional no transporte de mercadorias ao redor do mundo, seja por avião, navio ou caminhão.
Os preços elevados de energia podem acabar aumentando o preço de praticamente todo abacate, automóvel, par de tênis, celular e medicamento que é comprado e vendido ao redor do mundo.
Transportadoras em algumas regiões também precisam lidar com preços de frete disparando, rotas fechadas, navios encalhados, longos desvios e altas taxas de seguro de risco.
Milhares de embarcações estão represadas no golfo Pérsico. E transportadoras como Maersk e CMA CGM informaram aos clientes que se reservam o direito de descarregar seus contêineres no porto disponível mais próximo. Os clientes ficariam responsáveis por arcar com as cobranças adicionais.
Embora o petróleo tenda a dominar as manchetes, o fornecimento de gás natural de muitas formas está no centro das consequências econômicas da intensificação dos combates.
As instalações para processamento de GNL são muito menos numerosas do que as plantas de petróleo. A do Qatar, a maior do mundo, está danificada e inoperante há semanas. Isso também afeta o preço e a disponibilidade de materiais críticos como fertilizantes e hélio, um subproduto do gás natural usado para fabricar chips semicondutores.
Jan-Eric Fahnrich, analista sênior da Rystad Energy, disse que o impacto vai além dos danos aos campos de gás. A infraestrutura energética crítica do golfo que se presumia segura agora é vista como vulnerável, segundo ele. Um precedente foi estabelecido.
“Os compradores vão precificar esse risco por mais tempo do que a interrupção inicial em si”, escreveu Fahnrich em uma análise.
Países na Ásia e Europa, que dependem do GNL, provavelmente enfrentarão preços de gás mais caros muito tempo depois da reabertura do estreito de Hormuz.
Governos ao redor do mundo estão trabalhando para amenizar o impacto da disparada de preços de petróleo e gás. Áustria, Brasil, Itália, Portugal e Turquia cortaram ou suspenderam impostos sobre combustíveis, segundo a Agência Internacional de Energia. França, Hungria, Japão, Coreia do Sul, México e Tailândia limitaram alguns preços de combustíveis.
Em Bangladesh, universidades foram fechadas, e o Paquistão fechou escolas por duas semanas. O Sri Lanka racionou combustível e decretou feriado público às quartas-feiras.
“Muitos consumidores ao redor do mundo ainda estão machucados pelos aumentos de preços passados durante a crise energética global de 2021 a 2023”, observou a agência.
No entanto, após anos sendo sacudidos por uma pandemia, colapsos na cadeia de suprimentos e inflação dolorosa, os governos estão limitados —por orçamentos esgotados e cargas de dívida assustadoras— em sua capacidade de responder a outra crise.