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Petróleo dispara com tensão no Estreito de Ormuz – 04/03/2026 – Economia

by Silas Câmara

A escalada militar entre Estados Unidos, Israel e Irã empurrou novamente as cotações internacionais do petróleo para patamares que não eram vistos desde o início de 2025. Nesta quarta-feira (4), o Brent, principal referência de preço internacional, opera próximo de US$ 84 (R$ 435,67) por barril, após avanço de cerca de 12% em dois dias. Na véspera, fechou em alta de 4,7%, a US$ 81,40 —maior valor em 14 meses. O WTI, referência nos Estados Unidos, encerrou o dia a US$ 74,56, também com ganho de 4,7%.

O movimento reflete o temor de interrupções no fluxo de petróleo pelo estreito de Ormuz, por onde passa cerca de um quinto do consumo global da commodity.

A Guarda Revolucionária iraniana afirmou ter “controle total” da passagem marítima que liga o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã. Horas depois, o presidente Donald Trump disse que a Marinha americana poderá escoltar navios e que ordenou o fornecimento de seguros a “preço razoável” para o transporte na região.

Empresas de navegação relatam embarcações paradas e reavaliação de rotas após ataques a petroleiros e ameaças de bloqueio. Além do risco logístico, a guerra já provoca paralisações pontuais na produção e o fechamento de infraestrutura energética no Oriente Médio, elevando o temor de uma nova crise global de energia.

Segundo analistas, a sustentação de preços acima de US$ 80 dependerá da duração e da intensidade das interrupções. Estoques estratégicos elevados em países da OCDE e na China, além de volumes expressivos em trânsito e armazenamento flutuante, funcionam como amortecedor no curto prazo.

Em cenários-base traçados por consultorias internacionais, o Brent poderia permanecer na faixa dos US$ 80 em março e recuar para a casa dos US$ 70 nos meses seguintes. Num cenário extremo, com destruição relevante de infraestrutura, não se descarta pico acima de US$ 100.

A alta do petróleo pode pressionar a inflação brasileira, mas analistas ouvidos pela Folha dizem que ainda é cedo para dimensionar os efeitos. O país hoje exporta mais da metade do petróleo que produz, o que reforça a entrada de dólares e tende a melhorar receitas públicas e o saldo externo. Ao mesmo tempo, segue dependente de importações de diesel e de GLP (gás de cozinha), o que pressiona custos internos.

“O petróleo alto tem dois efeitos. Aumenta a arrecadação e a entrada de divisas, mas também pressiona os combustíveis”, afirma Décio Oddone, ex-diretor-geral da Agência Nacional do Petróleo, Gás e Biocombustíveis.

A defasagem no diesel já era relevante antes da nova escalada. Segundo a Abicom (Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis), na abertura do mercado desta terça-feira (3) o preço nas refinarias da Petrobras estava R$ 0,83 por litro abaixo da paridade de importação —patamar próximo ao observado antes do último reajuste, em janeiro de 2025.

A estatal afirma que evita repassar volatilidades momentâneas, promovendo ajustes apenas quando identifica mudança estrutural de preços. Mas, se o Brent se mantiver acima de US$ 80 por período prolongado, a pressão por reajustes tende a crescer, sobretudo no diesel, cujo mercado internacional já registra alta mais intensa que a da gasolina.

O risco maior, avaliam economistas, não é um salto imediato da inflação, mas a persistência de um petróleo elevado em um ambiente global já marcado por incertezas geopolíticas e comerciais. Em ano eleitoral, o impacto sobre combustíveis ganha dimensão política adicional.

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