Você quer dicas de como atingir uma maior pureza ideológica? Vou dar algumas, por pura generosidade, e porque quero ver você brilhar nos espetáculos culturais que saem nas colunas sociais. E mais: quero que você ganhe espaço nas editoras, nos prêmios e nos jantares inteligentes!
Começando por geopolítica. Se existir um regime de ditadores que matam, torturam e sequestram seu povo, inclusive, e com especial requintes de crueldade, as mulheres —estuprando-as em nome de um deus qualquer—, mas, se esse regime xingar os americanos, e, hoje em dia, especificamente, o Trump, seja a favor dos torturadores amigos.
Defenda a legitimidade desse regime, faça memes contra os americanos, evite informações que exponham o caráter perverso do regime, acuse-as de fake news. Vamos dar nomes aos bois? Defenda o regime dos aiatolás, torça descaradamente pelo Irã, espalhe a notícia falsa de que Bibi Netanyahu, primeiro-ministro de Israel, morreu, enfim, diga quase tudo que a diplomacia brasileira diz hoje.
Seja a favor da China, mesmo que o regime, notoriamente, seja totalitário, controle as redes sociais, invista em países que financiam o terrorismo, como o Irã. Tenha verdadeiros orgasmos quando falar da inteligência artificial chinesa. Sonhe com um mundo em que todos os povos livres do imperialismo americano viverão sob a batuta da democracia e tolerância chinesas.
Seja antissemita, mas diga que é “antissionista”, termo para enganar bobo. Espalhe por aí, sem dizê-lo, que os judeus dominam o mundo, os bancos, a mídia, o que faz de você um simpatizante dos famosos “Protocolos dos sábios de Sião”, peça antissemita típica da Rússia czarista do início do século 20. Se trabalhar na mídia, não dê notícias sobre ataques a sinagogas que possam sujar o nome dos parceiros ideológicos, os terroristas. O antissemitismo significativo hoje é de esquerda, logo, se você for de esquerda, seja antissemita.
Se for feminista, defenda todas as mulheres, só largue a mão das judias, se israelenses, torça pelo estupro delas. Silencie quando terroristas islâmicos as matarem e violentarem. Mas, cuidado pra ninguém sacar você muito facilmente.
Se for estudante universitário, xingue os colegas judeus, impeça-os de entrar nos campi. Faça manifestação contra professores judeus.
Se nasceu judeu, repita todos os dias, em todas as mídias, que você odeia Israel e o Bibi, pra ninguém duvidar da sua pureza ideológica. Combata o colonialismo na Palestina, torça para a aniquilação da “entidade sionista”, como dizem os irmãos, os aiatolás.
Deixando a geopolítica de lado. Mesmo que você denuncie a ditadura nas suas obras artísticas, defenda absolutamente o STF, mesmo se ele for pego com batom na cueca. Qualquer crítica a este, argumente entusiasticamente que quem fez a crítica é um fascista. Afirme que todos os abusos do judiciário são em defesa do Estado de Direito.
Por falar em fascista, nunca entre em discussões sobre identidade feminina. Não caia no pecado capital merecedor da fogueira de questionar o que faz uma mulher ser mulher. Fuja disso como o diabo foge da cruz. Use expressões como “pessoas que engravidam”, “pessoas com vagina”. Defenda mulheres trans no esporte feminino.
Tudo que acontecer de ruim, ponha a culpa nos homens cis, brancos e heterossexuais. Melhor, e de forma mais sintética e conceitual, ponha a culpa no patriarcado. Diga que homens cis heterossexuais brancos são culpados de tudo —nunca é demais repetir essa máxima se você quiser disputar o Oscar da pureza ideológica.
Se tiver uma editora, só publique livros woke. Se tiver uma livraria, só ponha à mostra livros woke. Se for da classe artística, torça contra os americanos em tudo, mas continue lambendo as botas do Oscar, maior marcador cultural americano de sucesso. Se for da classe acadêmica, só faça teses sobre decolonialidades, teoria de gênero, o ânus como órgão único da igualdade. Se for psicanalista, não pinte o cabelo e diga que a verdadeira clínica é a política.
Diga que toda forma de relação com homens objetifica a mulher. Torça para que as novelas e filmes só mostrem casais homoafetivos. Jamais seja evangélico. Se a vontade for incontrolável, compre algum kit de marketing que pinte sua imagem nas redes sociais como sendo um evangélico que vota no PT e é contra a Michele Bolsonaro.
Enfim, acorde de manhã gritando “genocida!”, “fascista!”, “sionista!”. Se não quiser ter filhos, diga que é porque você teme a crise climática, jamais confesse que é por preguiça pura e simples. E, acima de tudo, defenda a soberania nacional contra um ataque de mosquitos.
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