O cinema não está salvo. Na noite desta quinta-feira (27), a Warner Bros. Discovery, empresa que é dona de um dos estúdios mais tradicionais de Hollywood e que no fim do ano firmou um acordo para passar parte de suas operações à Netflix, voltou atrás após receber uma oferta melhor da Paramount.
A notícia aliviou os preocupados com a vitalidade das salas de cinema, já que o comando do gigante do streaming tende, historicamente, a priorizar lançamentos no sob demanda. Agora, por outro lado, há o risco de os filmes se tornarem pasteurizados, amordaçados pelo controle de Donald Trump sobre a Paramount.
A Netflix, que efetuaria a compra da Warner Bros. por US$ 82,7 bilhões, cerca de R$ 440 bilhões, já avisou que não vai fazer uma contraproposta para tentar superar a oferta da Paramount, que passa dos US$ 110 bilhões —ou R$ 565 bilhões.
Agora, agências federais precisam aprovar o negócio, que se for concretizado entrará para o rol de grandes fusões da mídia americana e unificará duas das mais tradicionais empresas de filmes e séries do mundo.
Fundadas no começo do século passado em uma Los Angeles ainda anônima, tanto a Warner quanto a Paramount ajudaram a erguer a cidade como um polo da indústria cinematográfica. Foram dois dos maiores estúdios na era de ouro de Hollywood, nos anos 1940, para depois, na década de 1970, financiarem filmes que renovaram a sétima arte, assinados por diretores como Stanley Kubrick e Francis Ford Coppola.
Assim, a disputa contra a Netflix se tornou geracional. A empresa de streaming lançou sua plataforma por assinatura em 2007 e, de lá para cá, se tornou um gigante do entretenimento e uma das principais responsáveis pela popularização do modelo sob demanda —que mudou em definitivo a forma como filmes e séries são produzidos e consumidos.
Ted Sarandos, CEO da Netflix, tentou acalmar o setor afirmando que as janelas de exibição nas salas de cinema não seriam extintas —mas não deixou de reafirmar que a ideologia de sua empresa passa, necessariamente, por priorizar a chegada do conteúdo onde o público está, ou seja, em casa.
A reviravolta desta semana acontece depois de a Paramount tentar emplacar várias ofertas consideradas hostis, feitas diretamente aos acionistas da Warner Bros., sem mesas de negociação com seu conselho. A proposta de agora foi levada a público após uma semana de conversas formais entre os executivos dos dois estúdios.
Faz pouquíssimo tempo, vale lembrar, que a Paramount passou por outra grande fusão. Sua compra pelo conglomerado Skydance Media foi finalizada em agosto do ano passado, com a bênção de Trump, que chegou a elogiar o CEO da empresa, David Ellison.
A oferta bilionária da Paramount para comprar a Warner tem respaldo de investidores da Arábia Saudita, do Catar e dos Emirados Árabes, países com os quais o presidente americano não tem medido esforços para agradar em prol dos negócios.
Desde que virou Paramount Skydance, o estúdio protagonizou uma série de polêmicas envolvendo acusações de censura a programas críticos ao presidente americano. O estopim foi em agosto, quando o programa de auditório The Late Show, um dos mais populares do país, foi cancelado e seu apresentador, Stephen Colbert, demitido da CBS —canal controlado pela Paramount.
Pouco antes, em julho, a animação “South Park”, conhecida pelo humor politicamente incorreto e pelas piadas ácidas envolvendo figuras poderosas, teve o lançamento de seus novos episódios cancelado. Quando enfim foi ao ar, o capítulo de estreia representou Trump como amante do Diabo e citou os casos de Colbert e de Jeffrey Epstein —que foi amigo do republicano e é acusado de operar uma rede de exploração sexual. Os criadores disseram que o estúdio tentou censurar o episódio.
Após um pedido de Trump, a Paramount irá, ainda, produzir o próximo filme de Brett Ratner, que apareceu nos arquivos de Epstein e estava afastado de Hollywood desde que foi acusado de assédio sexual em 2017 —mas retornou no mês passado, dirigindo o documentário “Melania“, que acompanha a primeira-dama americana.
Com histórico de showman, Trump já deu vários sinais de que gostaria de ter a mídia como aliada para favorecer a própria imagem. A preocupação em relação à compra da Warner, então, não é à toa. Apesar de mais tímido em relação ao passado, o estúdio de grande capacidade financeira ainda é responsável por algumas das poucas narrativas frescas em uma Hollywood tomada por sequências de franquias e remakes.
Com o selo do estúdio, “Uma Batalha Após a Outra” satiriza a polarização nos Estados Unidos e a desilusão com o sonho americano. O longa é um dos mais políticos desta temporada de premiações e favorito ao Oscar de melhor filme. Sua cena inicial mostra um grupo de guerrilheiros de esquerda que invade um acampamento militar para libertar imigrantes latino-americanos —há muito a falar sobre o ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos, a partir da sequência.
Mesmo os filmes mais pipoca da Warner têm espaço para provocações envolvendo questões de gênero e raça, como provam “Barbie“, em que a boneca questiona o papel da mulher num mundo dominado por homens, e “Pecadores“, outro queridinho dos prêmios, sobre vampiros brancos que espalham o terror num clube de blues.
No pacote de sua aquisição, a Paramount levará ainda a HBO, streaming que é muito superior em títulos e popularidade do que o Paramount+. O selo é lembrado pelas séries de excelência que mudaram a televisão americana, como “Game of Thrones”.
Por estar mais preocupada com o público adulto do que com conteúdo familiar, é comum ver no serviço produções que tocam em pontos nervosos da guerra cultural em curso nos Estados Unidos. Neste mês, por exemplo, a HBO adquiriu “Rivalidade Ardente“, trama gay recheada de cenas quentes.
E Trump já deixou claro, por uma série de decretos firmados no começo de seu governo, mirando instituições que recebem verba federal, que não vê com bons olhos quaisquer obras de arte que “degradem os valores americanos, dividam os americanos com base em raça ou promovam ideologias inconsistentes com a lei e as políticas federais”.
Ainda que o republicano não possa interferir diretamente em empresas privadas, como é o caso dos estúdios hollywoodianos, ninguém quer queimar o filme com o governo, que ainda representa os interesses da indústria em negociações internacionais e precisa aprovar as tais fusões corporativas.
Apesar do alerta, o futuro ainda não está definido. Afinal, podar a criatividade pode custar caro para um estúdio que se firmou como bastião do modelo de cinema tradicional que disputa com os hábitos da Netflix. No atual cenário de bilheteria, é momento de conquistar o público, não de afastá-lo.